Cientistas descobrem compostos com potencial de tratar febre amarela

Instituto de Ciências Biomédicas da USP testou 1.280 moléculas e 88 reduziram a infecção pelo vírus em 50% ou mais

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Os pesquisadores Rafaela Boneto, Lúcio Freitas-Júnior e Denise Pilger no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Estudo pode representar uma economia brutal de tempo e recursos na descoberta de um tratamento para a febre amarela – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP identificaram compostos (moléculas) já testados e farmacologicamente ativos para outras doenças e que apresentam potencial para tratar a febre amarela. Os testes foram realizados em culturas de células humanas de fígado infectadas pelo vírus causador da doença. Os cientistas testaram 1.280 compostos e 88 deles (6,9%) reduziram a infecção em 50% ou mais. A estratégia é conhecida como “reposicionamento de fármacos” e pode encurtar em vários anos a chegada de medicamentos do laboratório até as farmácias.

Das moléculas mais promissoras, duas delas também tiveram eficácia contra o vírus da dengue. O estudo traz resultados inéditos ao localizar compostos de amplo espectro de funções farmacológicas, mas não descritos como anti-febre amarela, o que oferece uma oportunidade para a desenvolvimento de fármacos específicos para o tratamento dessa doença que se configura como um problema de saúde pública brasileira e alarma a comunidade internacional.

Eletromicrografia de transmissão do vírus da febre amarela – Foto: Erskine Palmer, Ph.D. – Centers for Disease Control and Prevention Publich Health Image Library / Domínio público via Wikimedia Commons

De acordo com o pesquisador Lúcio Freitas-Júnior, um dos autores da pesquisa, para desenvolver uma droga desde o começo, ou seja, descobrindo uma molécula, pode-se levar de 10 a 12 anos, a um custo de até alguns bilhões de reais. Isso porque os processos de desenvolvimento de fármacos seguem fases de teste in vitro ou in vivo em modelos experimentais, além de testes de segurança, para que depois sejam iniciadas as fases de teste clínico, em humanos. Esse processo leva muito tempo e dinheiro.

“A partir da estratégia de reposicionamento de fármacos, quando você começa a partir de algo que já foi testado e que já existe uma indicação boa, você está encurtando esse tempo para 2 a 4 anos, a um custo reduzido”, afirma o cientista.

Essa pesquisa pode representar uma economia brutal de tempo e recursos na descoberta de um tratamento para a febre amarela”, destaca Freitas-Júnior.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores do ICB Carolina B. Moraes e Denise Pilger; professor Paolo Zanotto, do Departamento de Microbiologia; Sabrina Queiroz e Laura Gil, da Fiocruz; além de Freitas-Júnior. O artigo Drug repurposing for yellow fever using high content screening descreve a pesquisa e foi publicado na repositório Biorxiv.

Mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes (foto) transmitem o vírus da febre amarela para macacos e humanos nas áreas de floresta (ciclo silvestre da doença) – Foto: James Gathany/CDC via Revista Fapesp

De acordo com Freitas-Júnior, a ideia é desenvolver uma alternativa para a vacina da febre amarela. “É muito relevante que a pesquisa tenha sido feita no Brasil e 100% na USP”, destaca. “Agora, o próximo passo é reunir outros cientistas em um consórcio de diferentes grupos de pesquisa para trabalhar com os dados obtidos, que são inéditos. Temos excelentes moléculas e trabalhando dessa forma diferenciada vamos conseguir agregar valor ao que fazemos. O foco é o produto final, fazer algo que, de fato, seja diferenciado para o paciente”, explica.

Imagem do mosquito Aedes aegypti. Segundo o site do Ministério da Saúde, “no ciclo urbano da doença, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. O último caso de febre amarela urbana foi registrado no Brasil em 1942, e todos os casos confirmados desde então decorrem do ciclo silvestre de transmissão” – Foto: Muhammad Mahdi Karim via Wikipedia Commons/GFDL 1.2

O próximo passo é modificar as moléculas para aumentar a potência contra o vírus e diminuir os efeitos tóxicos sobre as células. Segundo Freitas-Júnior, caso alguma das moléculas que se mostraram promissoras para tratar a febre amarela necessite ser modificada, os cientistas estarão agregando valor a elas e, com isso, poderão surgir algumas patentes. Além do ensaio de febre amarela, o grupo de pesquisa também desenvolveu ensaios de triagem para os micro-organismos causadores de zika, dengue, chikungunya, leishmania e Chagas, entre outros.

Processo infeccioso

O professor Paolo Zanotto reforça a importância do trabalho, que proporcionou uma grande quantidade de moléculas já utilizadas para outros propósitos terapêuticos e, portanto, já testadas e aprovadas em humanos por demorados e rigorosos ensaios clínicos. “O estudo conduzido por Freitas-Júnior permitiu encontrar compostos com atividade antiviral para febre amarela e este sucesso implica a possibilidade de termos pela primeira vez a capacidade de interferir no processo infeccioso e salvar vidas”, afirma o virologista.

A pesquisa foi realizada a partir da estratégia High Content Screening (Triagem de Alto Conteúdo). Segundo Lúcio Freitas-Junior, este é o primeiro trabalho voltado para febre amarela que utiliza esta tecnologia. Os pesquisadores infectaram células humanas de fígado com o vírus da febre amarela. Eles testaram cada um dos 1.280 compostos para verificar quais matavam o agente causador da doença sem danificar as células. Após os testes, eles conseguiram identificar as moléculas com potencial terapêutico para combater o vírus.

Mais informações: e-mail luciofreitasjunior@gmail.com, com o pesquisador Lúcio Freitas-Júnior

Com informações de Juliane Duarte, do Serviço de Comunicação Institucional do ICB – e-mail comunicacao@icb.usp.br

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