Cientistas da USP criam e patenteiam método para produzir novos antifúngicos

Tecnologia pode ser utilizada para combater doenças produzidas por cepas resistentes aos tratamentos tradicionais

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Microfotografia de Cryptococcus neoformans no pulmão de um paciente – Foto: CDC/ Dr. Edwin P. Ewing, Jr. via Wikimedia Commons / Domínio público

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Cada ano, mais de 1,5 milhão de pessoas morrem no mundo por infecções por fungos, um número maior do que as mortes causadas por malária ou tuberculose. Apesar disso, e do rápido surgimento nos últimos anos de fungos resistentes a tratamentos tradicionais, só existem três classes de antifúngicos no mercado, um número que permanece estável desde 2006.

Agora, pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP acabam de patentear um método para produzir, de forma rápida e econômica, novas moléculas com propriedades antifúngicas.

“A grande vantagem biológica é que essas moléculas têm um efeito antifúngico melhor ou similar aos antifúngicos que estão no mercado”, explica a professora Kelly Ishida, que desenvolveu os ensaios biológicos. “Esses compostos também mostraram ser ativos para, pelo menos, dois dos principais gêneros de fungos que causam infecções hospitalares, Candida e Cryptococcus, e para linhagens resistentes a antifúngicos comerciais, como o fluconazol.”

Os derivados obtidos pelo novo método mostram melhor atividade antifúngica e menor toxicidade contra células humanas do que os descritos até o momento na literatura. Foto: Kelly Ishida

Os compostos são derivados da oxazolina, uma molécula com forma de anel, formada por três átomos de carbono, um de oxigênio e um de nitrogênio. Embora a oxazolina por si só não tenha nenhuma aplicação conhecida, alguns compostos que contêm o anel de oxazolina na sua estrutura têm propriedades clínicas, inclusive contra fungos. Mas, de acordo com os pesquisadores, os derivados obtidos pelo novo método mostram melhor atividade antifúngica e menor toxicidade contra células humanas do que os descritos até o momento na literatura.

Os métodos tradicionais para produzir derivados de oxazolinas têm um custo e um tempo de síntese altos, dois problemas que o novo processo evita.

“A gente tem só três passos reacionais. Isso é muito vantajoso porque você não despende um tempo muito grande para preparar. Os tempos de reação são muito curtos e os reagentes são baratos e fáceis de se encontrar”, explica o professor Hélio Stefani, responsável pela síntese das moléculas.

Novos fármacos

O desenvolvimento de novas classes de fármacos – que tenham estruturas diferentes aos fármacos tradicionais, ou que ajam sobre novos alvos terapêuticos – é fundamental para combater o surgimento de patógenos resistentes.

Na atualidade, só existem três grandes classes de antifúngicos: os macrolídeos, as equinocandinas e os triazóis, um número que permanece estável desde 2006. Hélio Stefani e Kelly Ishida acreditam que as oxazolinas podem agora abrir um novo caminho no desenvolvimento de novas fármacos antifúngicos.

De acordo com os pesquisadores, as novas moléculas têm um efeito antifúngico melhor ou similar aos antifúngicos que estão no mercado – Foto: Kelly Ishida

“Hoje no mercado temos só 11 moléculas que são utilizadas por via sistêmica – oral ou intravenosa. E essas 11 pertencem unicamente a três classes químicas”, afirma Kelly. “A última droga antifúngica sistêmica aprovada pela FDA [Food and Drug Administration, órgão federal dos Estados Unidos de controle de alimentos e medicamentos] foi o isavuconazol, em 2015. Ele é um triazol, da mesma família química que foi desenvolvida lá na década de 70”.

Os pesquisadores querem agora dar continuidade ao desenvolvimento e estão procurando parcerias para realizar experimentos em modelos animais, de forma a comprovar a eficácia e segurança das novas moléculas. O pedido de patente foi intermediado pela Agência USP de Inovação.

Mais informações: e-mails hstefani@usp.br, com Hélio Stefani, e ishidakelly@usp.br, com  Kelly Ishida

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