Onças da Caatinga:
a história de um resgate

Vítima de um conflito histórico do sertão, onça-pintada passou semanas aprisionada dentro de uma caverna até ser salva por pesquisadores

A bióloga Cláudia Campos estava a trabalho no sertão da Bahia quando a notícia chegou pelo WhatsApp. Segundo a mensagem, moradores de uma comunidade rural no norte do Estado haviam perseguido e aprisionado uma onça-pintada dentro de um túnel, na borda de uma caverna, depois de ela ter matado uma ovelha. 
 
A história era preocupante — as onças-pintadas estão criticamente ameaçadas de extinção na Caatinga (apesar de ainda serem abundantes no Pantanal e na Amazônia), e a comunidade em questão fica às margens do Parque Nacional do Boqueirão da Onça criado em abril de 2018, justamente com o propósito de proteger esses últimos raros felinos do bioma. Mas era também duvidosa — afinal de contas, histórias de onças são como histórias de pescador, quase sempre recheadas com uma boa dose de folclore e exagero.  
 
Será que era mesmo uma onça-pintada, ou uma onça-parda? Talvez uma jaguatirica? E será que o bicho estava mesmo preso na caverna, ou já tinha escapado por algum outro buraco? Só mesmo indo até lá para descobrir. “Teoricamente, ela estava lá, presa. Mas a história era muito incompleta, cheia de incertezas”, relembra Cláudia. 
 
Pesquisadora veterana do Instituto Pró-Carnívoros (IPC), há 13 anos na região, ela conhece na pele os desafios logísticos, sociais e ambientais de se trabalhar no interior da Caatinga. Sua primeira decisão foi voltar a Petrolina, do outro lado do Rio São Francisco, para apurar melhor a história e montar uma equipe de resgate, se necessário. As informações vinham pelo zap de uma moradora da comunidade de Sanharó, que ficou sabendo do ocorrido e estava preocupada com o bicho.
 
A data era 19 de maio e a onça já estava presa na caverna há seis dias, supostamente. Cláudia recrutou a ajuda de três veterinários (dois da Universidade Federal do Vale do São Francisco e um do batalhão do Exército em Petrolina), organizou uma pequena expedição e partiu para o local, a 325 quilômetros de distância, na zona rural de Sento Sé, em plena Caatinga baiana.
 
Chegando à comunidade, Cláudia conversou com a moça que lhe enviara as mensagens e com um dos homens que haviam perseguido a onça. Um clássico sertanejo, criador de cabras e ovelhas. O homem contou que ele e mais dois compadres haviam seguido o rastro do corpo de uma ovelha morta até a beira de uma dolina — um grande buraco formado pela erosão de rochas calcárias —, preenchida até o topo pela copa verde de dois grandes juazeiros. 

Na imagem do Google Earth, o contorno em vermelho é o Parque Nacional do Boqueirão da Onça, e o contorno em amarelo é a APA do Boqueirão da Onça. O alfinete vermelho mostra a localização da dolina onde a onça foi resgatada - Imagem: Reprodução/Google Earth

O rastro de sangue indicava que a ovelha tinha sido arrastada para dentro de um pequeno túnel na borda da dolina, com aproximadamente 1 metro de diâmetro. Contrariando o bom senso, dois dos homens resolveram se esgueirar pelo túnel, levando dois cachorros à frente. Não demorou muito, deram de cara com a onça. Ela se atracou com o cães e botou todo mundo para correr com um rosnado.
 
Por sorte, ninguém se machucou. Mesmo assim, antes de bater em retirada, os homens fecharam a entrada do túnel com um monte de pedras, aprisionando a onça.

Um conflito de predadores

Resgate exigiu equipamentos de rappel para chegar ao túnel e roupas de apicultura, para se proteger do ataque de abelhas. Foto: Programa Amigos da Onça

O conflito entre homens e onças é histórico na Caatinga. Onde os recursos são escassos e a vida já é difícil por natureza, há pouco espaço para cultivar a amizade entre predadores — ainda mais no solo seco do sertão. 
 
A maioria dos sertanejos da região sobrevive da roça e da criação de cabras e ovelhas, que são deixadas livres para vagar pela Caatinga em busca de comida. Vez ou outra, algumas delas acabam mesmo virando comida de onça. Mas há outros perigos, também. É comum os bichos morrerem de sede, fome, doenças, picada de cobra e até atacados por outros animais domésticos famintos, como cães e porcos. 
 
“Mas quem sempre leva a culpa é a onça”, diz a pesquisadora portuguesa Cláudia Guerreiro Martins, engenheira agrônoma e doutoranda em Ecologia Aplicada do Programa de Pós-Graduação Interunidades (PPGI-EA) da Universidade de São Paulo (USP), campus Piracicaba, que estuda as relações entre seres humanos e animais selvagens na Caatinga, em colaboração com o Programa Amigos da Onça, do Instituto Pró-Carnívoros. 
 
“A onça mexe muito com o imaginário e a emoção das pessoas”, relata Cláudia. “Tenham ou não tenham tido alguma experiência com o bicho, todos têm uma opinião sobre ele. Tem gente que nunca viu uma onça na vida, mas conta a história do sujeito que morreu de bafo de onça 50 anos atrás.”
 
Uma parte fundamental da pesquisa de Cláudia envolve a identificação dos “determinantes de conflito”. Ou seja, quais são os sentimentos, os medos, os interesses e os diferentes fatores sociais, ambientais ou econômicos que levam os seres humanos a se confrontar com as onças na Caatinga. Segundo ela, é comum as pessoas se referirem às onças como bichos “perversos”, por predarem os animais do quais elas dependem para sua subsistência. Mas também há sentimentos positivos, como admiração e empatia, que afloram quando a conversa é encaminhada de uma forma mais amigável.
 
“Muita gente fala que a onça é perversa, mas reconhece depois que elas entram na roça por fome; porque não tem mais comida no mato”, relata Cláudia, chamando atenção para o problema da caça — um hábito cultural (porém ilegal) do sertanejo, que acaba com os catetos, queixadas, veados, cotias, tatus e outros bichos selvagens, que deveriam ser a comida natural das onças na Caatinga. Quanto menor a população de presas selvagens, maior a probabilidade dos felinos atacarem animais domésticos para se alimentar. Aí você percebe que essa relação antagônica entre bichos e humanos é pontual, diz a pesquisadora.

Uma luz no fim do túnel

A copa verde dos juazeiros desponta da dolina onde a onça se refugiou, e acabou aprisionada - Foto: Programa Amigos da Onça

Depois de conversar com o homem de Sanharó, ficou claro para Cláudia e sua equipe que era preciso ir até a dolina resgatar a onça. “Ele não estava confortável com o que tinha feito e concordou em nos acompanhar até o local”, conta a pesquisadora. 
 
Logo que lá chegaram, porém, ficou óbvio que o resgate não seria tão simples assim. Além do túnel ser pequeno, de difícil acesso e entocado na borda de um buraco, as paredes da dolina pelas quais os pesquisadores precisavam descer para chegar até ele estavam forradas de colmeias de abelhas africanizadas selvagens, “muito agressivas e perigosas”. “Se elas resolvessem nos atacar, podiam matar todo mundo”, afirma Cláudia. “Era risco de morte mesmo. Não podia nem espirrar.”
 
Por mais que quisessem salvar o animal, não podiam colocar as próprias vidas em perigo. Voltaram então para Petrolina sem saber até onde ia o túnel e se a onça ainda estava dentro dele, viva ou morta.

 

A entrada do túnel foi fechada com rochas para aprisionar a onça - Foto: Programa Amigos da Onça

Nesse ponto, já fazia dez dias que o animal estava preso, teoricamente sem água e sem comida — além da ovelha que ela tinha arrastado para dentro do buraco. A possibilidade da onça ter morrido era grande, mas Cláudia não podia desistir. Estima-se que haja apenas 30 onças-pintadas restantes na região do Boqueirão — em uma área de 7 mil km2, cinco vezes maior do que o município de São Paulo. “Numa população tão reduzida, qualquer indivíduo a menos é uma perda gigantesca”, explica Cláudia.

Enfim, o resgate

Equipe de resgate desce a dolina com a caixa-armadilha, feita para capturar a onça sem machucá-la - Foto: Programa Amigos da Onça

Cláudia voltou para Petrolina e de imediato começou a organizar uma nova expedição; dessa vez, com a participação adicional de um espeleólogo (especialista em cavernas), um biólogo, dois auxiliares de campo do Programa Amigos da Onça e quatro bombeiros de Juazeiro, especializados na eliminação de colmeias — que também são uma ameaça nas áreas urbanas da região.
 
Voltaram ao local no dia 1º de maio e montaram acampamento próximo ao buraco. Já fazia 19 dias que a onça estava presa.
 
Na mesma noite, os bombeiros foram até a dolina remover as colmeias. Voltaram de madrugada ao acampamento exaustos e com uma má notícia. Eram colmeias demais, abelhas demais; não havia como eliminar todas. A equipe de salvamento, então, teria que descer a dolina de rappel e fazer todo o trabalho de resgate usando roupas de apicultura para se proteger dos insetos. E assim foi feito.
 
A operação foi programada para o dia seguinte, 2 de maio. Optou-se por trabalhar à noite, quando as abelhas estão dormindo, para minimizar o risco de um ataque. A distância vertical da borda da dolina até a entrada do túnel era de aproximadamente 100 metros.
 
Quatro resgatistas desceram o buraco de rappel, retiraram as pedras e colocaram uma caixa de quase 100 quilos na boca do túnel, projetada para fechar automaticamente caso a onça entrasse nela. Às 4h da madrugada do dia 3, voltaram para checar a armadilha, e lá estava a onça dentro dela. Severamente desnutrida e debilitada, mas viva!
 
“Foi uma adrenalina gigantesca; o coração veio parar na boca”, relembra Cláudia. “Me fez até passar mal na hora. Tive que lidar com isso também (risos).” As abelhas se comportaram bem durante o processo (só ficavam bravas quando ligavam as lanternas), e ninguém se feriu. 

Equipe se prepara para voltar a Petrolina com a onça - Foto: Programa Amigos da Onça

A onça foi sedada ainda dentro da caixa e levada de caminhonete para um Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) no campus da Univasf, em Petrolina. No final, foram 22 dias de prisão, dos quais Cláudia estima que ela tenha ficado pelo menos 15 sem comer nem beber nada, depois de consumir a ovelha. “É incrível que ela tenha sobrevivido.”
 
Em homenagem à filha de uma colega que nasceu no mesmo dia do resgate, a onça foi batizada de Luísa. É uma fêmea adulta, de aproximadamente 10 anos, com 50 centímetros de altura e 1 metro de comprimento — do tamanho de um cachorro grande. As onças-pintadas da Caatinga são naturalmente menores do que as de outros biomas, como resultado de uma adaptação evolutiva à vegetação e ao clima da região (sendo menores, elas precisam de menos comida, menos água, gastam menos energia e regulam a temperatura corporal com mais facilidade). “São menores, mas não menos fortes”, avisa Cláudia. “Elas têm um força surpreendente.”

Futuro

Já parruda e saudável novamente, Luísa segue em observação no Cetas da Univasf, acompanhada de perto pelos especialistas. A intenção, eventualmente, é devolvê-la à natureza, equipada com uma coleira de GPS para que os pesquisadores possam rastrear seus passos, monitorar sua saúde e aprender mais sobre o seu comportamento na natureza  gerando, assim, um conhecimento essencial para orientar a conservação da espécie e sua coexistência com os seres humanos do bioma.

Equipe de resgate: Rogério Dell’Antonio (espeleólogo da Egric – Espeleo Grupo Rio Claro/SP); Sgt. Josenilton Santos (biólogo e veterinário do 72º Batalhão da Infantaria Motorizada do Exército); Fábio Walker e Fabrício Silva (veterinários do Cemafauna/Univasf); Paulo Reis (biólogo); Ismael Silva e Mariano Jesus (auxiliares de campo). A coleira de GPS foi doada pela Enel Green Power Brasil e pelo Projeto Onçafari através empresa parceira Pandhora Technologies.

 

A pesquisadora Cláudia Campos se prepara para instalar uma coleira de GPS na onça anestesiada - Foto: Programa Amigos da Onça

Foto de destaque: A onça Luísa espia por uma fresta na caixa, pouco depois de ser resgatada - Crédito: Programa Amigos da Onça

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