Há 18 mil anos, aumento brutal de chuvas transformou vegetação e relevo do Nordeste

Aumento da pluviosidade causado por alteração na circulação das águas do Atlântico fez a caatinga dar lugar a grandes árvores e intensificou a erosão fluvial

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Delta do Rio Parnaíba - Foto: Wikimedia Commons
Delta do Rio Parnaíba – Foto: Wikimedia Commons

Há aproximadamente 18 mil anos, uma alteração no fluxo das águas do Oceano Atlântico levou a um gigantesco aumento do volume de chuvas no Nordeste brasileiro. A descoberta aconteceu em uma pesquisa realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, a partir da análise de sedimentos acumulados nas proximidades da desembocadura do Rio Parnaíba, ao largo do Piauí e do Maranhão.

Devido à maior pluviosidade, a caatinga deu lugar a árvores de grande porte e a erosão criou imensos canais ao longo do leito dos rios.

O objetivo principal da pesquisa era determinar o impacto de períodos muito específicos do passado geológico nas chuvas sobre a região nordeste da América do Sul, onde está situado o Nordeste brasileiro. “Durante esses períodos, houve um enfraquecimento muito marcante da Célula de Revolvimento Meridional Atlântico, conhecida pela sigla Amoc”, afirma o professor Cristiano Chiessi, da EACH, que participou do estudo. A Amoc é uma circulação de água em grande escala que ocorre no Oceano Atlântico, quando águas quentes e com alta salinidade do Atlântico Sul são levadas para as altas latitudes do Atlântico Norte, onde ganham densidade, afundam e voltam para o Sul mais frias e em maiores profundidades.

A circulação das águas teria sido afetada em dois períodos no passado geológico recente, o Heinrich Stadial I, ou HS1 (entre aproximadamente 18 e 15 mil anos atrás) e o Younger Dryas (estimado entre 12,9 e 11,7 mil anos atrás). “Esses eventos provocaram o enfraquecimento ou até a estagnação da circulação de água, que deixou de transportar para o Hemisfério Norte uma quantidade de calor quase 100 mil vezes maior que a potência máxima da hidrelétrica de Itaipu”, diz Chiessi. “O calor não transportado ficou no Hemisfério Sul, o que causou grandes impactos na precipitação da região tropical.”

Testemunhos marinhos

Para descobrir o que aconteceu durante a atenuação da Amoc, foram investigados 108 testemunhos marinhos – tubos que coletam colunas sedimentares no fundo dos oceanos. Eles foram recolhidos na porção oeste do Atlântico, na margem sul-americana, entre as latitudes 20 graus norte e 30 graus sul, correspondente aproximadamente à região tropical.

As amostras serviram para calcular a taxa de sedimentação, que indica quanto sedimento se depositou por unidade de tempo. O cálculo foi feito para duas janelas temporais, o Último Máximo Glacial, entre 23 e 19 mil anos, quando a Amoc apresentava intensidade similar à atual, e o HS1, quando a Amoc estava muito enfraquecida.

Rio Parnaíba - Foto: Wikimedia Commons
Rio Parnaíba – Foto: Wikimedia Commons

Durante o Último Máximo Glacial, período em que o Planeta apresentava enormes mantos de gelo, as maiores taxas de sedimentação ocorreram na região da desembocadura do Rio Amazonas, no Norte do Brasil, um resultado já esperado pelos cientistas, pois o rio apresenta elevado volume de transporte de detritos. A surpresa, no entanto, aconteceu ao serem obtidas taxas de sedimentação muito superiores às do próprio Amazonas nas proximidades da desembocadura do Rio Parnaíba, no Nordeste, no período.

A partir desses dados foram formuladas duas hipóteses para o aumento. Uma delas é a reversão da Corrente Norte do Brasil, que teria levado os sedimentos do Amazonas para o Nordeste. A outra é o acúmulo de grande quantidade de calor na superfície do Atlântico, nas regiões equatorial e sul, que “teria deslocado a Zona de Convergência Intertropical (área onde ventos vindos dos Hemisférios Norte e Sul da Terra se encontram) para o Nordeste, com o aumento de chuvas fazendo os rios da região carregarem mais sedimentos para o oceano”, detalha Chiessi.

Como método de análise, foi verificada nos sedimentos vindos do continente a composição de isótopos, variações de um mesmo elemento químico que diferem umas das outras apenas no número de nêutrons. O elemento avaliado  foi o neodímio. “Na desembocadura do Parnaíba os valores do neodímio eram muito inferiores aos dos sedimentos do Amazonas, o que afastou a hipótese de reversão da Corrente Norte do Brasil”, observa o professor da EACH.

A precipitação ocorrida no Nordeste nesse período teria sido extremamente alta, como nunca registrado desde que começou a medição direta, com os instrumentos que temos hoje. Assim, o mais provável é que esse aumento nas chuvas tenha intensificado a erosão das margens dos rios e levado maior quantidade de sedimentos para o oceano.

Rio Parnaíba: aumento das chuvas pode ter intensificado a erosão das margens dos rios e levado maior quantidade de sedimentos para o oceano – Foto: Wikimedia Commons

De acordo com Chiessi, a grande quantidade de chuvas teria mudado de forma radical a vegetação e o desenho do relevo do Nordeste brasileiro. “Ao longo de um período entre 18 e 15 mil anos atrás, a vegetação rasteira da caatinga foi substituída por formações arbóreas de grande porte”, conta. “Pelos leitos dos rios, a erosão das margens criou canais fluvais cujo tamanho é incompatível com os padrões de drenagem atuais.”

A pesquisa é descrita em artigo publicado na revista científica Earth and Planetary Science Letters, elaborado com base nas conclusões do trabalho de doutorado de Yancheng Zhang, coorientado pelo professor da EACH, em parceria com uma instituição de pesquisa na Alemanha. O estudo faz parte de um projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que envolve pesquisadores da EACH, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) e do Instituto de Geociências (IGc) da USP, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade de Bremen e do Instituto Alfred Wegener de Pesquisas Polares e Marinhas, na Alemanha.

Mais informações: email chiessi@usp.br, com o professor Cristiano Chiessi

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