De olho nos céus: pesquisadores mapeiam locais com maior incidência de raios no planeta

Estudo capitaneado por pesquisadora do IAG mapeou os locais de maior incidência de raios do planeta

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Raios na região do Lago Maracaibo, na Venezuela - Foto: Reversehomesikness
Raios na região do Lago Maracaibo, na Venezuela – Foto: Reversehomesikness

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Embora seja um questionamento comum aos estatísticos, as probabilidades de uma pessoa ser atingida por um raio são quase sempre retratadas como muito remotas. No entanto, no mês de maio, recebemos notícias de incidentes envolvendo raios que bateram tristes recordes ao atingirem dezenas de pessoas ao redor do mundo.

Em Bangladesh, durante violentas tempestades tropicais, foram 65 vítimas fatais em apenas quatro dias. Na França e na Alemanha, dezenas de pessoas ficaram feridas durante fortes chuvas, incluindo um grupo de crianças de 9 a 11 anos, atingidas por um raio durante uma partida de futebol. No Brasil, um homem morreu no dia 31 ao ser atingido por um raio no sudoeste do Maranhão, que, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), está entre os estados do Nordeste com maior incidência de raios.

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O Lago Maracaibo, na Venezuela, a capital mundial dos relâmpagos

Publicado em fevereiro de 2016, o artigo Where are the lightning hotspots on Earth? (em tradução livre, “Onde estão os pontos ativos de raios na Terra?”) mapeou, por 16 anos, os locais de maior incidência de raios do planeta. Uma das principais conclusões do estudo é que a incidência de raios está relacionada com as características dos respectivos locais, como a topografia ou vegetação.

A análise revelou ainda, entre diversas descobertas, que o Lago Maracaibo, na Venezuela, é a capital mundial dos relâmpagos. Até então, a maior densidade de raios tinha sido encontrada no Congo, na África.

Escrito em conjunto por profissionais da Nasa, da Universidade de Maryland e do Alabama, o artigo foi encabeçado por Rachel I. Albrecht, professora do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Uma década e meia de observação

Com o auxílio de um sensor de raios — Lightning Imaging Sensor (LIS) — que estava a bordo do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a equipe investigou diversas zonas de raios ao redor do planeta.

“O sensor foi lançado no final de 1997 e descomissionado em 2015”, conta Rachel. “Desde 2009, monitoramos os máximos de raios, fazendo a climatologia, e agora, como o satélite não está mais operando, encerramos com 16 anos de dados, incluindo de 1998 até 2013”, explica a docente. O LIS utiliza um sistema de imagem especializada de alta velocidade para olhar para as mudanças na saída óptica causada por um raio no topo das nuvens.

Satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) - Foto: Nasa/Wikimedia Commons
Satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) – Foto: Nasa/Wikimedia Commons

O sensor é capaz de enxergar a emissão óptica no topo das nuvens por atividade elétrica, medindo tanto os raios que acontecem dentro da nuvem, quanto os que incidem da nuvem para o solo, chamados de “raios totais”. Anteriormente, a equipe tinha dados com a precisão de sensores em um diferente satélite, que atingiam 0.5 grau de alcance.

Utilizando o LIS, os cientistas contaram com a precisão de 0.1 grau, ampliando o nível de detalhes. “Com 0.5 grau, o máximo de raios era no Congo. Com 0.1, desde 2009, descobrimos que era no Lago de Maracaibo”. Localizado ao noroeste do território venezuelano, o lago é alimentado por vários rios, sendo o maior deles o Catatumbo. Durante o ano, a região enfrenta 297 dias com tempestades.

Um ranking eletrizante

A partir da análise, foi possível para a equipe realizar um ranqueamento que elencou os 500 locais com maior incidência de raios no mundo. Destes, 283 estão localizados na África, uma região que, de acordo com a especialista, tem desenvolvimento de sistemas convectivos de mesoescala durante o ano inteiro e numa área grande.

No ranking, o Brasil começa a aparecer na posição 191, e o local com mais raios fica localizado ao noroeste de Manaus, próximo do Rio Negro. “Só no Brasil temos, em média, aproximadamente 110 milhões de raios totais por ano”, afirma.

Se somarmos todos os raios totais sobre o território brasileiro, o Brasil é o país com mais raios no mundo, devido a sua dimensão continental e por estar nos Trópicos

Para os especialistas, compreender a relação dos raios com o clima e a química atmosférica pode ser essencial para a criação de políticas públicas para o meio ambiente. “O raio pode causar prejuízos materiais e de vidas”, lembra Rachel ao revelar que as informações captadas nos últimos 16 anos podem ajudar no monitoramento do tempo. Seria possível, com a ajuda dos dados e de outras ferramentas, criar novos alertas de tempestade.
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Locais com maior incidência de raios no mundo de acordo com o estudo
Where are the lightning hotspots on Earth?

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Indicativos de mudanças climáticas

“O raio também é um indicativo de intensidade das tempestades, em termos de clima; quanto mais quente estaria o clima, mais tempestades intensas estariam acontecendo”, salienta ela. Portanto, é possível entender os raios como um dos indicativos de como as mudanças climáticas estão atingindo a atmosfera.

Foto: Wikimedia Commons
Foto: Wikimedia Commons

Além disso, o raio também é um precursor natural de óxido de nitrogênio, que está ligado à formação de ozônio na troposfera. “Não o ozônio bom da camada de ozônio, mas sim o da atmosfera mais baixa, que é prejudicial à saúde, ao sistema respiratório”, destaca a especialista.

Para o futuro, os pesquisadores pretendem analisar se nesses 16 anos houve um aumento ou uma diminuição na intensidade das tempestades, não apenas no número de raios, mas se estão mais intensas ou não. A ideia é “ter um indício do que está ocorrendo em termos de mudanças climáticas nessa última década e meia”, finaliza Rachel.

Mais informações:  (11) 3091-4738, email rachel.albrecht@iag.usp.br, com Rachel Albrecht

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