Prejuízos ao solo, à água e à biodiversidade seguiram crescimento da agropecuária francesa

Em trabalho premiado e útil para aplicação a outras regiões, pesquisador traz resultados que podem contribuir para modelos mais sustentáveis

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Foto: Fábio Torrezan / Acom / Esalq

 

Desde 1938 até 2010, a agropecuária francesa cresceu muito em produtividade. Porém, para que esse crescimento acontecesse, houve prejuízos para o meio ambiente que durante muito tempo foram pouco observados. Esta foi a principal conclusão levantada na tese de doutorado do zootecnista João Pedro Domingues, Metabolismo socioecológico das áreas de produção animal: enfoque da contabilidade ambiental.

Realizada a partir de um acordo de dupla titulação entre a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e a escola de engenharia francesa AgroParisTech, a tese foi dividida e publicada em três artigos científicos. Em 2019, o conjunto do estudo foi reconhecido pelo Ministério da Agricultura da França com a Médaille d’argent-Dufrenoy (Medalha Dufrenoy), concedida às melhores teses de doutorado defendidas naquele país em diferentes áreas do conhecimento.

O pesquisador explica que, apesar de ser um país relativamente pequeno, na França existe grande variedade de condições biofísicas e sistemas de produção pecuária, que podem ser comparadas com diferentes regiões de outros países. 

Desse modo, apesar de tratar especificamente da atividade pecuária francesa, o trabalho de Domingues traz resultados úteis para análises semelhantes de diferentes regiões do mundo. Conforme afirmou a comissão responsável pelo prêmio, o estudo “abre perspectivas inéditas de uma visão global em busca da sustentabilidade da produção pecuária”.

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Os laureados na cerimônia de entrega da Medalha Dufrenoy, em outubro de 2019. João Pedro está no centro, na fileira de baixo – Foto: Reprodução / Académie d’Agriculture de France

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Produtividade versus impacto ambiental

Para analisar a trajetória da agropecuária francesa nas últimas décadas, Domingues utilizou métodos estatísticos multivariados, aplicados de maneira específica em cada uma das três partes da tese. 

Na primeira, foram observados os principais fatores da intensificação da atividade em termos de uso da terra, fatores socioeconômicos e de produtividade desde 1938 até 2010. Na segunda parte, o objetivo foi analisar esses fatores com o objetivo de compreender melhor como se deu a interação entre a dimensão produtiva e a dimensão ambiental ao longo destas décadas. E, por fim, na parte final, o pesquisador buscou medir os impactos causados por essas mudanças para os serviços ecossistêmicos, como são chamados os fenômenos naturais que trazem benefícios diretos e indiretos para o ser humano. 

“Nós abordamos esse conceito em uma forma mais ampla, para incorporar todas as contribuições positivas da atividade pecuária para a sociedade, que podem ser em termos ambientais, sociais e socioeconômicos, como, por exemplo, geração de empregos”, explica Domingues. Desse modo, foi possível constatar, por exemplo, que o setor agropecuário no país dobrou a sua produção durante todo o período analisado, uma evolução marcada principalmente pelo aumento da mecanização e da produtividade.

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Pesquisador analisou impactos da produção agropecuária em serviços ecossistêmicos – Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

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No entanto, quando observados os efeitos na natureza, ficou evidente uma discrepância entre o ganho produtivo e o impacto ambiental. Ao mesmo tempo que a produção crescia, ocorreram eventos como, por exemplo, o aumento da poluição por nitrato, queda na qualidade da água e perda de biodiversidade.

De acordo com o pesquisador, um dos motivos pelo qual isso ocorre é que, em determinadas regiões onde a produção é muito intensiva, havia alta densidade de animais alojados nas fazendas. Essa grande quantidade de animais gerava um excesso de dejetos que não era absorvido pelo solo e pelas plantas, e assim acabava sendo levado aos lençóis freáticos e contaminando rios, por exemplo.

“A poluição por nitrato impacta na qualidade da água para consumo, e também na biodiversidade”, complementa Domingues. “Estávamos sempre comparando duas regiões, uma que teve uma trajetória de intensificação bem proeminente e outra onde foram conservadas, por exemplo, as pastagens, um sistema mais extensivo de produção. Comparando essas duas, percebemos que a região bastante intensiva tinha um potencial poluidor muito maior.”

A atividade pecuária é compreendida em dois sistemas, o extensivo e o intensivo. Na pecuária extensiva, são utilizadas técnicas mais tradicionais de cultivo, o gado é mantido em pastos e há menor necessidade de investimento. Já o modelo intensivo está associado à utilização de técnicas mais modernas, em que geralmente os animais ocupam áreas menores e há o emprego de tecnologias mais avançadas com o objetivo de aumentar a produtividade.

Análise ampla e multidisciplinar

Um dos diferenciais da pesquisa de Domingues foi considerar a produção agropecuária a partir de uma análise ampla, olhando também os fatores socioambientais. Conforme ele explica, a maior parte dos estudos publicados sobre o tema foca somente um aspecto, como, por exemplo, a fazenda de produção, o animal ou um produto específico. Neste caso, a análise foi feita no nível regional – a França é subdividida em “regiões”, que podem ser comparadas aos estados brasileiros.

Professor Augusto Hauber Gameiro, da FMVZ, co-orientador da tese de doutorado de Domingues – Foto: Arquivo pessoal

“Numa região francesa há uma combinação de vários tipos de produção, condições climáticas e diferentes realidades socioeconômicas”, diz. “Com os nossos resultados, salientamos a importância de estudar não somente o animal, ou pequenas escalas, mas ter uma visão mais ampla do sistema de produção para entender bem as interações com o meio.”

Domingues conta também que um dos principais aprendizados que adquiriu estudando na França diz respeito a essa análise ampla e interdisciplinar, que é um modelo mais comum naquele país, enquanto no Brasil os estudos costumam seguir análises mais segmentadas e específicas. Para ele, a experiência foi importante pois dessa forma pôde compreender as diferenças e a importância de cada método analítico.

Parte dos métodos utilizados neste estudo já foi aplicada ao contexto brasileiro, em uma pesquisa do professor da FMVZ Augusto Hauber Gameiro, co-orientador de Domingues, publicada em artigo na revista científica Regional Environmental Change.

Quanto aos três artigos derivados da pesquisa de Domingues, estes podem ser acessados, também em inglês, clicando nos links:

Mais informações: e-mail domi.joaopedro@gmail.com

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