Como escolher melhor carvão para consumidor, saúde e meio ambiente

Estudo mostra que nem sempre o carvão de qualidade, certificado e ambientalmente sustentável, tem preço mais caro

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Além de levar um produto melhor, consumidor que faz escolha correta pode fortalecer a cadeia sustentável do carvão vegetal – Foto: Romary by Wikipedia/Cc

A escolha certa de um bom carvão vegetal pode garantir não apenas um bom churrasco como também pode ajudar no fortalecimento da cadeia produtiva sustentável para o setor. E mais: nem sempre o produto ambientalmente correto é o mais caro. Quem defende a ideia é o engenheiro florestal Ananias Francisco Dias Junior em sua pesquisa de doutorado direto pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.

No estudo, o pesquisador analisou os aspectos mercadológicos e de qualidade para o consumo do carvão vegetal. Para isso, entre 2014 e 2015, ele analisou diversas amostras de 53 marcas vendidas em 50 estabelecimentos comerciais de 63 bairros de Piracicaba e entrevistou 1023 consumidores da cidade.

“O consumidor precisa considerar a qualidade do carvão vegetal da mesma forma que considera a cerveja, a carne ou os legumes utilizados em um churrasco”, aponta Dias Junior. “Para isso, precisa estar atento para adquirir produtos que atendam à regulamentação. Respeitando-se isso, vamos continuar fazendo nosso churrasco. Essa valorização resultaria na melhoria de toda a sua cadeia produtiva que, há um bom tempo, vem exigindo atenção especial, por envolver centenas de milhares de agentes, desde a produção até a comercialização.”

Segundo o engenheiro, o Brasil é o maior produtor mundial, com seis milhões de toneladas/ano e, ao mesmo tempo, o maior consumidor de carvão vegetal do mundo. No Estado de São Paulo, a produção é de 18 mil toneladas anuais e o consumo é de 20 mil toneladas. “Essa cadeia produtiva emprega milhares de pessoas, mas é pouco valorizada”, destaca.

Selo Carvão Premium

Para auxiliar os consumidores a escolherem um produto de qualidade, o pesquisador recomenda que a primeira coisa a observar são as informações da embalagem do carvão, como lote, registro em órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e, em outros Estados, do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

“É recomendado que a madeira utilizada seja de eucalipto. A informação sobre a origem da madeira assim como o número do lote também são importantes pois informam se o material é oriundo de florestas plantadas, e não de matas nativas, e se existe um controle de acompanhamento do processo de produção.”

Feito isso, devem ser observadas as peças de carvão vegetal da embalagem. “O carvão vegetal de eucalipto apresenta, na maioria das vezes, peças maiores, com mais de 10 centímetros, pouco pó, são mais homogêneas e retilíneas. O consumidor deve desconfiar se o carvão estiver muito granulado, com muitas peças pequenas e muito heterogêneo. Possivelmente foi feito a partir da extração de outra madeira que não fosse a de eucalipto. Além disso, um bom carvão, além das características já citadas, lembra um ruído de ‘vidro’ ao cair no chão”, informa.

Carvão vegetal de eucalipto apresenta, na maioria das vezes, peças maiores, com mais de 10 centímetros, pouco pó, e mais homogêneas e retilíneas – Foto: Rcandre by Wikipedia/Cc

De acordo com o pesquisador, o Estado de São Paulo é o único que tem uma regulamentação, de 2015, para o uso do carvão vegetal para churrasco: trata-se do “Selo Carvão Premium”. “Os demais Estados brasileiros têm utilizado essa norma, mesmo que de modo incipiente. A resolução, de adesão voluntária, informa que o produtor ou estabelecimento que possuir o selo produz ou adquire o carvão vegetal atendendo a questões socioambientais justas para a execução do trabalho. A ideia é que essas ações façam com que, no futuro, os produtores e comerciantes do produto estampem o selo como uma forma de marketing, colaborando com a cadeia produtiva.”

Qualidade nem sempre custa mais

Segundo o engenheiro florestal, os resultados da pesquisa foram surpreendentes. “Um dos fatos observados foi que a qualidade dos produtos não apresentou um comportamento bem definido e a relação ‘mais caro – melhor qualidade’ não se concretizou, uma vez que os produtos que apresentaram os requisitos legais e socioambientais adequados em seu processo produtivo não necessariamente eram os de maior valor.”

O engenheiro florestal partiu da observação da existência de inúmeras marcas de carvão vegetal comercializado em redes de supermercados, supermercados independentes, casas de carnes, postos de combustíveis, padarias, quitandas, mercearias e mercados pequenos. O pesquisador percebeu que, de um ano para outro, poucas marcas se mantiveram no mercado varejista.

Produtos que apresentaram os requisitos legais e socioambientais adequados em seu processo produtivo não necessariamente eram os de maior valor – Foto: Luiz Felipe Sousa Oliveira by Wikipedia/Cc

Ao entrevistar os 1.023 consumidores, o pesquisador constatou que a embalagem é uma das principais características para a compra. A presença de alça, embalagens resistentes, facilidade de acendimento e rendimento de preparo são atributos muito relevantes. Em contrapartida, observou-se que os consumidores, na maioria das vezes, não consideram os aspectos de produção e de regulamentação para compra, sendo estes muito importantes para a manutenção da cadeia produtiva do carvão.

Toxicidade

Relacionado à saúde ocupacional, o estudo detectou a presença de 16 compostos com capacidade nociva. Porém foram extraídos por uma diluição do carvão em solventes orgânicos. “Provavelmente durante a queima no churrasco, esses compostos contidos na fumaça sejam degradados pela temperatura atingida no processo. Vale lembrar que a fumaça entra em contato com os alimentos, sendo importante estudos futuros que a caracterize para melhores definições”, afirma. O pesquisador alerta, contudo, que a utilização do carvão vegetal não provoca danos à saúde.

A tese de doutorado Carvão vegetal para cocção de alimentos: aspectos mercadológicos e de qualidade para o consumo será defendida no próximo dia 19 de dezembro. A orientação do trabalho foi do professor José Otávio Brito, do Departamento de Ciências Florestais, e colaboração do professor Marcos Milan, do Departamento de Engenharia de Biossistemas, ambos da Esalq. A pesquisa contou com o apoio do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mais informações: e-mail ananiasjr@usp.br, com Ananias Francisco Dias Junior

Com informações de Caio Albuquerque, da Assessoria de Comunicação da Esalq

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