Centro de pesquisa se dedica ao combate de doenças tropicais negligenciadas

O Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar) vem consolidando parcerias com organizações internacionais para desenvolver novas alternativas de tratamento para essas doenças

Por - Editorias: Ciências
Fotos: Wikimedia Commons
Fotos: Wikimedia Commons

Dengue, doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose e hanseníase são patologias que têm uma característica em comum: elas são algumas das 17 Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN), grupo de doenças endêmicas que são causadas por vírus, bactérias, protozoários e vermes, que determinam cerca de 100 mil a 1 milhão de mortes por ano, especialmente em regiões mais pobres do planeta, como África, Ásia e América Latina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as DTN ocorrem em 149 países, afetando mais de 1,4 bilhão de pessoas — quase metade desse número é composta de crianças. Para ter uma real dimensão desse número, saliente-se que 1,4 bilhão de pessoas equivalem a 20% da população mundial, representando sete vezes o número da população brasileira.

De acordo com dados mais recentes do Global Burden of the Diseases — um estudo global sobre o impacto das doenças e causas de morte —, em 2013 as DTN registraram 142 mil mortes. Por um lado, a taxa é positiva, uma vez que no início da década de 1990 o mesmo estudo identificou 204 mil mortes reportadas. Em resumo, num período de 15 anos houve uma redução de 30% nos casos de mortes causadas pelas Doenças Tropicais Negligenciadas.

Para o professor Rafael Guido, do Grupo de Cristalografia do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, esse resultado se deve aos esforços e iniciativas mundiais — principalmente da OMS — que têm sido feitos no combate às DTN. “Atualmente, a Organização Mundial da Saúde selecionou duas das 17 doenças como alvo para erradicação, sendo elas a dracunculíase e a bouba, e quatro para eliminação [tracoma, doença do sono, lepra e elefantíase].”

Rafael Guido - Foto: Divulgação
Rafael Guido – Foto: Divulgação

Assim como países vizinhos, africanos e asiáticos, o Brasil enfrenta dois grandes desafios: a pobreza e a falta de acesso às condições mínimas de saneamento básico. Ambos os cenários, segundo Guido, tornaram o Brasil uma região propícia para a disseminação das DTN, principalmente aquelas causadas por parasitas, como, por exemplo, a esquistossomose. Nesse sentido, em 2004, o Ministério da Saúde, junto com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, organizou grupos de estudos com gestores, pesquisadores e profissionais da área da saúde, de maneira a definir quais DTN deveriam ser combatidas, com prioridade, no nosso país. Hoje, com base em dados epidemiológicos, demográficos e no impacto das doenças, sete das 17 DTN são consideradas como as grandes prioridades no País — dengue, doença de Chagas, leishmaniose, hanseníase, malária, esquistossomose e tuberculose.

Apenas o Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas, infecta 8 milhões de pessoas na América Latina. “A estimativa é que 23% destes pacientes vivam no Brasil, ou seja, aproximadamente 2 milhões de brasileiros têm doença de Chagas.” A leishmaniose visceral (forma mais grave e letal das leishmanioses), segundo dados de 2014 referentes ao Brasil, acometeu quase 3.500 pessoas. A dengue, por sua vez, teve 1,2 milhão de casos registrados somente neste primeiro semestre de 2016. O número de casos de esquistossomose reportados em 2014 foi da ordem de, aproximadamente, 33 mil.

Embora não sejam mais consideradas doenças negligenciadas, devido aos recursos destinados ao controle e tratamento, a malária e a tuberculose são enfermidades que têm alta incidência em território brasileiro, principalmente a segunda, que é a principal causa de morte de pacientes HIV positivos.

Zika, chikungunya e H1N1 são DTN?

Ao contrário das doenças citadas anteriormente, patologias como a infecção por zika, chikungunya e H1N1 não integram a lista de doenças tropicais negligenciadas. Isso porque as três têm recebido especial atenção dos governos nacional e internacionais, com grandes repercussões na mídia. De acordo com Guido, a grande atenção contribui positivamente na alocação de recursos e no estabelecimento de forças-tarefas específicas para estudar patologias e traçar estratégias de controle e tratamento.

Mesmo não sendo DTN — o que já é um ponto positivo —, vale ressaltar que o panorama dessas três doenças é grave, porque se não são doenças letais, como a gripe H1N1, elas podem causar sequelas, como é o caso do zika vírus. “Os casos de microcefalia causados pelo vírus são apenas a ‘ponta do iceberg’. Não sabemos ainda, em longo prazo, quais são os sintomas que esses pacientes podem apresentar. Por isso, os estudos que visam a uma melhor caracterização da doença são de fundamental importância”, enfatiza.

Em busca de estratégias para as DTN

Além de docente do IFSC, Rafael Guido é pesquisador do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), que atualmente é coordenado pelo professor Glaucius Oliva (IFSC). Criado por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o CIBFar é resultado de projetos de pesquisa colaborativos, envolvendo diversos laboratórios — Laboratório de Química Medicinal e Computacional (LQMC) e Laboratório de Biofísica Molecular do IFSC; Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (NUBBE/Unesp); Laboratório de Síntese Orgânica do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ/Unicamp); Laboratórios de Produtos Naturais e Síntese Orgânica do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (DQ/UFSCar); e Laboratório de Produtos Naturais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP —, no qual se realizam desde prospecção biológica até análise pré-clínica in vitro e in vivo de compostos candidatos a fármacos para o combate às DTN, desenvolvendo também estudos de toxicologia e de farmacocinética, com o objetivo de criar medicamentos patenteáveis. Mais do que isso, o centro se dedica a estudos voltados à investigação de infecções causadas por bactérias super-resistentes e algumas doenças não infecciosas de alto impacto, como, por exemplo, câncer e Alzheimer.

Guido explica que seu grupo de pesquisa tem contribuído bastante para a descoberta de novas moléculas candidatas a fármacos para o tratamento da malária.

Nós realizamos o processo de triagem de moléculas promissoras e, uma vez identificadas essas moléculas, iniciamos os estudos de desenvolvimento”

Esse tipo de trabalho, de acordo com o docente, é extenso e, geralmente, decorrem anos até que se possa descobrir alguma molécula candidata a fármaco, já que é necessário garantir que essas substâncias sejam potentes o suficiente para serem administradas em baixas doses e eficazes para eliminarem o alvo. “Além disso, como investigamos doenças negligenciadas, cujos pacientes geralmente pertencem às camadas menos favorecidas da população, temos que garantir um baixo custo no tratamento”, destaca, lembrando que a OMS indica que os tratamentos para DTN devem custar no máximo US$ 1,00 por dose. No caso da malária, a recomendação é que todo o tratamento custe US$ 1,00.

Mosquito Anopheles - Foto: Divulgação/Scientists Against Malaria)
Mosquito Anopheles – Foto: Divulgação/Scientists Against Malaria

Com o intuito de desenvolver novas alternativas de tratamento para as doenças tropicais negligenciadas, o CIBFar tem consolidado uma série de parcerias com organizações internacionais, incluindo a Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi) e a Medicine for Malaria Venture (MMV). Ambas atuam entre universidades e grandes empresas, interagindo, principalmente, com indústrias localizadas em países que sofrem os impactos das DTN. Por este motivo, diz Guido, o CIBFar tem conseguido contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos para essas doenças, ao mesmo tempo em que tem formado especialistas em técnicas e métodos utilizados para a elaboração de fármacos para doenças infecciosas endêmicas do Brasil.

Atualmente, o CIBFar tem duas frentes de pesquisa, sendo uma de pesquisa básica e outra de pesquisa aplicada. Na pesquisa básica, utiliza ferramentas de biologia molecular e estrutural para obter uma melhor compreensão a respeito de como funcionam os parasitas. Esse tipo de conhecimento é essencial para conhecer o “inimigo” e planejar estratégias eficientes para a eliminação dos microrganismos responsáveis por causar as DTN.

Já a segunda frente de pesquisa compreende os estudos que têm focos muito mais específicos, como, por exemplo, o desenvolvimento de uma nova molécula para o tratamento da malária. Nesse tipo de pesquisa, os cientistas utilizam métodos de química medicinal e síntese orgânica para desenvolverem compostos que tenham as características necessárias para agirem no organismo humano, com eficácia e segurança. “No centro, há também pesquisadores focados na investigação de produtos naturais nacionais, como fontes inspiradoras para a descoberta de novos fármacos e novas formas mais eficientes para se obter moléculas candidatas a medicamentos que possam tratar e combater as DTN.”

Com anos de atuação na área de desenvolvimento de estratégias para o tratamento e combate às DTN, Guido revela que as expectativas para eliminar as doenças negligenciadas no Brasil e no mundo são muito baixas. Isso porque, a cada dia, os pesquisadores descobrem novas informações sobre a biologia desses parasitas e se surpreendem como organismos tão simples conseguem desenvolver mecanismos tão complexos para sobreviverem. Somado a isso, há ainda o agravante do surgimento de cepas resistentes aos poucos tratamentos disponíveis para as doenças negligenciadas.

Levam-se anos para descobrir e desenvolver um novo medicamento e, dependendo do caso, em apenas alguns meses os parasitas conseguem gerar resistência ao fármaco.”

Devido a essa situação enfrentada por pesquisadores da área, a OMS, assim como as organizações DNDi e MMV, aconselha que os novos tratamentos para qualquer tipo de DTN sejam feitos em associação com dois ou mais medicamentos, tal como já ocorre com os tratamentos da malária e da tuberculose, nos quais são administrados dois fármacos simultaneamente. Com essa estratégia simples, Rafael Guido acredita que seja possível diminuir significativamente as chances dos parasitas gerarem resistência aos tratamentos.

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