Canabidiol desenvolvido na USP chega às farmácias

Fitofármaco derivado da maconha pode ter diversas aplicações terapêuticas. Produto foi criado em parceria com uma indústria farmacêutica do Paraná

CBD (canabidiol) é uma molécula extraída da planta da maconha – Imagem: Luana Franzão / Jornal da USP

Canabidiol desenvolvido na USP chega às farmácias

Fitofármaco derivado da maconha pode ter diversas aplicações terapêuticas. Produto foi criado em parceria com uma indústria farmacêutica do Paraná

Por Herton Escobar
11/05/2020

O primeiro extrato de canabidiol desenvolvido no Brasil chegou às farmácias de todo o País na semana passada, graças a uma parceria entre a indústria farmacêutica e cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), que há décadas pesquisam possíveis aplicações farmacêuticas para compostos derivados da planta Cannabis sativa — a maconha.

Fabricado pelo laboratório Prati-Donaduzzi, no Paraná, o produto foi liberado para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 22 de abril, e os primeiros lotes foram entregues ao mercado às vésperas do Dia das Mães, 10 de maio. Mas não adianta procurar por ele nas prateleiras — a venda está condicionada à apresentação de receituário tipo B (azul), de numeração controlada, a exemplo do que já ocorre com calmantes, antidepressivos e outras substâncias psicoativas, que atuam sobre o sistema nervoso central.

Diferentemente do medicamento Mevatyl (ou Sativex) — único canabidiol disponível no mercado nacional até agora, produzido pela britânica GW Pharma —, que tem indicação específica para o tratamento de espasticidade (contrações musculares involuntárias) relacionada à esclerose múltipla, o produto brasileiro foi registrado como um fitofármaco (fármaco de origem vegetal), sem indicação clínica pré-definida. Isso significa que ele pode ser receitado para qualquer condição em que o canabidiol seja considerado potencialmente benéfico para o paciente.

“A indicação fica a critério do médico”, resume Antonio Zuardi, de 73 anos, professor titular de Psiquiatria da FMRP e um dos pioneiros da pesquisa com derivados da maconha no Brasil e no mundo. A recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM), segundo ele, é que o produto só seja usado de forma “compassiva”, depois que todas as alternativas convencionais de tratamento já tiverem sido testadas sem sucesso.

“É uma responsabilidade do médico, compartilhada com o paciente e seus familiares, quando este não tiver condições de decidir sozinho”, explica Jaime Hallak, professor titular do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP, que também participou do desenvolvimento do produto.

 Antonio Zuardi – Foto: Arquivo pessoal

O canabidiol (CBD) é uma das várias substâncias presentes na maconha (chamadas canabinoides) que agem sobre o sistema nervoso central (especialmente no cérebro), e que são pesquisadas em laboratórios mundo afora, para uma série de aplicações terapêuticas — por exemplo, no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla, doença de Parkinson, esquizofrenia, ansiedade, fobias sociais e vários outros distúrbios psiquiátricos e emocionais.

Alguns desses efeitos já são bem comprovados em seres humanos, outros nem tanto; mas as promessas são muitas. Em estudos pré-clínicos, com modelos animais, “ele parece ser bom para quase tudo”, diz o pesquisador Francisco Guimarães, professor titular e orientador da pós-graduação em Farmacologia e Saúde Mental da FMRP. “É realmente impressionante”, completa ele — ressaltando, porém, que muitas dessas funcionalidades ainda precisam ser melhor estudadas e comprovadas em ensaios clínicos bem controlados, em seres humanos.

Liderança internacional

USP é a instituição que mais publica trabalhos científicos sobre canabidiol no mundo