Bactéria da caatinga pode ser solução para doença bovina

Tratar a mastite bovina sem afetar a qualidade do leite é um dos grandes desafios atualmente, uma vez que a doença pode levar à perda de 10% a 40% da produção de leite

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 O papel dos pecuaristas e de seus funcionários é essencial na prevenção da doença - Foto: Lucas Jacinto/Esalq
Composto produzido a partir de actinobactérias mostrou ter ação antimicrobiana contra os principais agentes causadores da mastite bovina – Foto: Lucas Jacinto/Esalq

 

Composto produzido a partir de actinobactérias do gênero Streptomyces, comuns em solos de diversas regiões, inclusive na caatinga, mostrou em estudo na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP ter ação antimicrobiana contra os principais agentes causadores da mastite bovina – doença caracterizada pela inflamação aguda ou crônica das mamas. “As actinobactérias agem na inibição do crescimento de patógenos responsáveis pela inflamação”, diz a pesquisadora Ana Paula Ferranti Peti, do Departamento de Química da FFCLRP.

Cultura de bactérias Streptomyces - Foto: Wikimedia Commons
Cultura de bactérias Streptomyces – Foto: Wikimedia Commons

As actinobactérias são organismos cosmopolitas, ou seja, presentes em várias regiões, com predominância no solo, onde desempenham a biodegradação de resíduos e vivem em simbiose com raízes de plantas. Elas já são utilizadas na produção de antibióticos, mas não para a mastite. Apesar de o tema ser estudado em diversos grupos no mundo todo, esta pesquisa é pioneira, segundo Ana Paula. “Empregamos actinobactérias únicas vindas de um bioma pouco explorado do ponto de vista biotecnológico, a caatinga.”

Foram avaliadas aproximadamente 120 actinobactérias e cerca de 60% delas apresentaram algum tipo de ação antimicrobiana. “As actinobactérias são os procariontes, ou seja, organismos que não possuem material genético envolto por membrana, mais economicamente e biotecnologicamente viáveis, e mantêm uma posição de destaque devido a sua diversidade e capacidade comprovada para produzir novos compostos com atividade biológica”, afirma Ana Paula.

O estudo foi feito a partir de três testes com modelos diferenciados. Primeiro, as actinobactérias e as bactérias causadoras da mastite foram colocadas em uma mesma placa para a análise de crescimento. Quando a actinobactéria apresentou atividade antimicrobiana, as bactérias da mastite não conseguiram crescer ao seu redor. “O resultado deste ensaio é semelhante ao obtido por Alexander Fleming na descoberta da penicilina”, esclarece a pesquisadora.

 Actinobactérias são comuns no solo da Caatinga - Foto: Wikimedia Commons
Actinobactérias são comuns no solo da caatinga – Foto: Wikimedia Commons

Após os testes, as actinobactérias ativas foram cultivadas em condições específicas de temperatura, agitação e composição. Após o desenvolvimento das actinobactérias nesse ambiente controlado, os compostos produzidos foram extraídos, o chamado extrato bruto. Em seguida, esses extratos foram colocados em contato com as bactérias causadoras da mastite para a avaliação da atividade antimicrobiana.

Para as actinobactérias mais promissoras, no sentido de inibir o crescimento das bactérias causadoras da mastite, foi realizado ensaio para determinar a menor concentração do extrato bruto capaz dessa ação. “Estes resultados são bastante promissores por se tratar de um extrato bruto”, afirma o orientador da pesquisa, professor Luiz Alberto Beraldo de Moraes, da FFCLRP.

A mastite é causada por bactérias, fungos, leveduras e algas – é a principal doença dos rebanhos leiteiros em todo o mundo devido à alta incidência de casos e aos prejuízos econômicos que acarreta. Estima-se que a perda da produção de leite varie de 10% a 40% por lactação.  Atualmente, é tratada principalmente com antimicrobianos e antibióticos, que são escolhidos conforme o patógeno envolvido em cada caso. Um dos problemas enfrentados nesse tratamento é a possibilidade de encontrar traços desses medicamentos no leite. Portanto, o maior desafio é desenvolver tratamento eficaz e seguro contra a diversidade de patógenos da mastite, sem afetar a qualidade do leite e não prejudicar a saúde humana.

Próxima etapa

Segundo a pesquisadora, a próxima etapa do trabalho será a avaliação da eficácia dos compostos antimicrobianos produzidos pelas actinobactérias nos estudos in vivo, ou seja, serão aplicados em vacas infectadas com mastite clínica ou subclínica. Além disso, “o estudo desenvolvido é a etapa inicial para encontrar possíveis moléculas modelo para o desenvolvimento de fármacos que possam ser aplicados no controle da mastite bovina”.

 onde há o diagnóstico da mastite - Foto: Lucas Jacinto/Esalq
Próxima etapa será a avaliação da eficácia dos compostos antimicrobianos produzidos pelas actinobactérias em vacas com diagnóstico de mastite – Foto: Lucas Jacinto/Esalq

As bactérias isoladas do leite provenientes de vacas com mastite clínica foram cedidas pelo professor e coordenador do laboratório Qualileite, Marcos Veigas dos Santos, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, em Pirassununga, e as actinobactérias do solo da caatinga foram isoladas pelo pesquisador Itamar Soares de Melo, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Meio Ambiente) de Jaguariúna.

A tese Identificação de agentes antimicrobianos produzidos por actinobactérias de solo para o controle da mastite bovina foi defendida em maio deste ano no Programa de Pós-Graduação em Química da FFCLRP.

Gabriela Vilas Boas

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