Artigo discute o processo emocional dos jovens em sair ou não da casa dos pais

Artigo traz à tona a discussão sobre os inúmeros fatores capazes de fazer com que os jovens queiram morar com seus pais e se isso é uma comodidade ou facilidade

 12/04/2021 - Publicado há 8 meses

Segundo o artigo, alguns jovens chegam até a se casarem cedo para adquirirem a almejada liberdade. Jovens – Foto: Locies – Pixabay


Por Margareth Artur

Tempos atrás, sair de casa, para alguém na faixa etária dos 20 a 30 anos, era questão de honra, um grito de independência em relação aos pais. Sair de casa era uma atitude em busca da liberdade, da privacidade tolhida, pois família representava repressão. Em artigo publicado na recém-lançada revista Cadernos CERU, a pesquisadora Maria Lucia de Souza Campos Paiva relata que alguns jovens chegaram “até a casarem cedo para adquirirem a almejada liberdade”. Mas o tempo passou e a sociedade incorporou mudanças de tolerância moral: a permissão das famílias para que os filhos levem os namorados ou “ficantes” na casa da família e até partilhem o mesmo quarto. Essas inovações acabaram por proporcionar, aos filhos, a vontade de prolongar a saída de casa.

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O artigo traz à tona a discussão sobre os inúmeros fatores capazes de fazer com que os jovens queiram morar com seus pais, hoje uma situação bastante comum. A autora lança a pergunta: “Será, então, que a permanência dos filhos dentro da casa dos seus pais pode ser entendida apenas por comodidade ou facilidade?”. Para respondê-la, parte da análise sobre como se dá o processo da independência emocional e como a família é determinante essencial para o crescimento do filho, de maneira que, quando adulto, esse jovem seja alguém que conte com autonomia e verdadeira independência – aí a educação da família é imprescindível. Mas como educar esses jovens nesse sentido? Tanto nas classes sociais mais altas, quanto jovens que moram em repúblicas, por exemplo, constata-se a dificuldade de sair de casa. 

No primeiro caso, temos aqueles estudantes que nunca terminam a faculdade, vão prorrogando a iniciativa de entrar no mercado de trabalho para terem mais tempo de exercer outras atividades além do estudo. No segundo caso, os jovens não se sentem maduros o suficiente para arcarem com as dificuldades financeiras e ficarem sem o apoio emocional da família. A respeito do desenvolvimento da independência, a autora cita o psicanalista e pediatra inglês Donald Woods Winnicott, que afirma “indivíduo e ambiente estão interligados”, sendo vital, para a vida adulta, que essa independência se dê desde os primeiros anos da criança.

Jovens – Foto: Pexels – Pixabay


Mais tarde, a criança percebe a presença e a ausência temporária da mãe como normal, acrescentando que também percebe que sua mãe e seu pai cuidam dele, mas também cuidam de outros elementos que completam a vida do casal. A criança se percebe como parte do mundo, “
ampliando suas relações e suas experiências”. A partir daí o processo de iniciação da independência começa a desenvolver-se junto do desenvolvimento da autonomia. No caso do artigo, a autonomia intelectual, o fundamento que favorece outras perspectivas para a concretização de um “comportamento autônomo”, capaz de gerar o pensamento crítico dos indivíduos. O pensamento autônomo se inicia quando “os adultos que com ela convivem puderem ouvir e aceitar” suas decisões e escolhas.

Devido ao prolongamento da adolescência e à dificuldade de os jovens adentrarem no mundo adulto, assumindo responsabilidades e definindo projetos de vida, passou-se a chamar de adulto jovem o indivíduo que se encontra naquela faixa etária entre o adolescente e o adulto, esclarecendo a autora que hoje não se consegue definir quando a adolescência começa e quando ela termina. Outra observação importante no artigo é o fato de o trabalho e o casamento não indicarem, atualmente, maturidade. A permanência dos filhos na casa dos pais pode não apenas ser vista como comodidade, mas significar uma afetividade que define uma relação de liberdade e respeito entre pais e filhos. “A saída da casa dos pais é um corte, uma ruptura, tanto para os filhos como para os pais”, mas pode ser vivida com serenidade, se o indivíduo desenvolver “a capacidade de estar só”, segundo Winnicott.

A dificuldade de enfrentar a solidão, de assumir um projeto de vida pessoal, o sentimento de deixar os pais sozinhos, administrar a própria vida, o aparecimento de dificuldades financeiras, o medo de ir embora, tudo isso compactua com a demora para sair de casa. Finalizando, a autora deixa patente a possibilidade da separação sem traumas, quando pais e filhos são capazes de mostrar maturidade ao consolidarem novas práticas familiares, que promovam a independência sem culpa, de ambos os lados, com o nascimento “não nos moldes de um vínculo de dependência mútua, mas de uma troca mais simétrica, em que cada um possa ter seus projetos”. 

Artigo

PAIVA, M. L. de S. C. O processo de (in)dependência do adulto jovem. Cadernos CERU, São Paulo, v. 31, n. 2, p. 149-156, 2021. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/182166. Acesso em: 23 fev. 2021.

Contato

Maria Lucia de Souza Campos Paiva – Pedagoga, psicóloga clínica, psicanalista, doutora em Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP

ceru@usp.br


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