Análise de artefatos de pedra pode mudar teoria sobre pré-história na América do Sul

Forma e modo de produção de artefatos indicam existência de povos com diferentes culturas no atual território brasileiro, ao invés de uma tradição única

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Estudo das características de pontas de flechas, lanças e dardos encontrados em sítios arqueológicos de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul revela diferenças em seu formato e modo de produção, o que desafia a tese de que os povos indígenas dessas regiões tinham uma mesma cultura na pré-história – Fotomontagem: Jornal da USP

 

Um novo método para analisar pontas de flechas, lanças e dardos feitos de pedra lascada (pontas líticas) por grupos indígenas pré-históricos que habitavam o atual território brasileiro pode mudar as teorias sobre a ocupação da América do Sul, aponta pesquisa do Instituto de Biociências (IB) da USP. A análise, baseada na comparação das características das pontas líticas, mostrou que há diferenças tanto no formato quanto no modo de produção dos artefatos entre as peças encontradas em sítios arqueológicos de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. A descoberta indica que esses grupos, que viveram há cerca de 13 mil anos atrás na parte oriental da América do Sul, tinham culturas diferentes, o que desafia a tese de que pertenciam a uma mesma cultura, conhecida como “Tradição Umbu”.

As conclusões do estudo, bem como os dados brutos obtidos durante a pesquisa, são apresentadas em artigo publicado na revista Quartenary International. “O novo protocolo de análise foi aplicado em coleções arqueológicas associadas à ‘Tradição Umbu’, a fim de verificar se todas as pontas líticas eram realmente homogêneas (similares) ou não”, afirma o arqueólogo João Carlos Moreno de Sousa, que realizou a pesquisa. “É importante lembrar que artefatos feitos de pedra lascada, como essas pontas de flecha, são bastante comuns em muitos sítios arqueológicos brasileiros, especialmente nos sítios de grupos caçadores-coletores, ou seja, grupos indígenas pré-históricos antigos que não praticavam a agricultura”, afirma o pesquisador ao Jornal da USP.

O estudo analisou as pontas de pedra de sítios arqueológicos localizados nas regiões Sudeste e Sul do Brasil: sítio Alice Boer, em Ipeúna (São Paulo), Caetetuba, em São Manuel (São Paulo), Tunas, em Arapoti (Paraná) e Garivaldino, em Brochier (Rio Grande do Sul). “Todos esses locais foram escavados por outras equipes de pesquisa, desde a década de 1960 até 2016, e os materiais encontrados estavam sob a guarda de museus. Todos eles possuem datas radiocarbônicas (carbono 14) que remontam até a 13 mil anos atrás”, relata o arqueólogo. “Também foram incluídas pontas líticas encontradas e doadas por moradores das cidades de Porangaba e Iracemápolis, no interior de São Paulo, e que irão passar por trabalhos de datação.”

 

Localização dos sítios arqueológicos estudados nesta pesquisa; os pontos vermelhos correspondem a sítios datados, e diamantes verdes indicam sítios sem data (Ir: Iracemápolis; Po: Porangaba; SC: Santa Cruz) – Imagem: Reprodução

 

Segundo o arqueólogo, a análise da tecnologia lítica já é usada há cerca de 50 anos e se baseia na observação de feições relacionadas aos métodos e técnicas de produção dos artefatos de pedra lascada, ou seja, de como teriam sido fabricadas e usadas no passado. “A novidade da pesquisa é que o protocolo de análise foi desenvolvido especificamente para o estudo das pontas líticas do leste sul-americano. Sua vantagem é propor uma padronização das características que devem ser analisadas em pontas líticas, assim como uma terminologia padronizada”, explica. “Isso permite comparar dados de diferentes coleções e fazer testes estatísticos para verificar se as coleções comparadas são ou não significativamente distintas.”

De acordo com Moreno de Sousa, os diferentes grupos de pesquisa poderão comparar os dados uns dos outros e verificar se os dados das coleções que analisaram são ou não similares. “Caso sejam, isso pode ser um indicativo de que ambos analisaram coleções da mesma cultura arqueológica, mas não necessariamente das mesmas pessoas, já que culturas arqueológicas podem durar milênios e se expandir por vastas áreas geográficas”, diz. “Os dados brutos estão disponíveis como arquivos suplementares do artigo e podem ser utilizados por qualquer pesquisador para aplicação de novos testes estatísticos.”

Diferenças regionais

A professora Mercedes Okumura, do IB, uma das autoras do artigo, já havia analisado a forma das pontas de pedra associadas à Tradição Umbu, em colaboração com Astolfo Araújo, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. “Esse estudo indicou que as pontas de São Paulo tinham uma forma, enquanto as do Paraná tinham outra e as do Rio Grande do Sul não se assemelhavam às demais, mas também parecia indicar que as formas não mudavam muito ao longo do tempo”, aponta Mercedes. “De qualquer forma, não tinham sido comparados os aspectos tecnológicos, ou seja, sabia-se que a forma final dos artefatos era diferente, mas será que o modo de produção não era o mesmo? A pesquisa mostra que as pontas são diferentes também quanto ao modo de fabricação nessas três regiões.”

 

Artefatos de pedra analisados na pesquisa, encontrados em sítios arqueológicos de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul; diferenças no formato indicam diferentes identidades culturais em cada região – Foto: Reprodução

 

O arqueólogo afirma que outro estudo, feito em parceria com pesquisadores da área de geociências, mostra que as indústrias de pedra lascada apresentam diferenças, independentemente das mudanças que ocorreram no ambiente ao longo do tempo. “Mesmo quando as rochas à disposição eram diferentes, isto é, de pior qualidade, esses grupos ainda aplicavam a mesma tecnologia e faziam as pontas no mesmo formato”, ressalta o pesquisador ao Jornal da USP. “Nesse sentido, a identidade cultural de cada um desses grupos ficou bem registrada nos artefatos.”

As conclusões do estudo são a princípio um passo adiante para rever o conceito de “Tradição Umbu” que perdura desde a década de 1980 na arqueologia brasileira, defendendo que os grupos que faziam essas pontas de pedra eram todos iguais, e que sempre foi vista com desconfiança pelos pesquisadores de países vizinhos, avalia a professora do IB.

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“A pesquisa buscou retomar as primeiras tentativas de verificar diferenças entre os artefatos que os arqueólogos das décadas de 1960 e 1970 já haviam feito, mas que infelizmente foram esquecidas quando tudo passou a ser visto como uma única cultura”, destaca Mercedes. “A questão importante aqui é: se os grupos indígenas atuais que vivem no Brasil apresentam uma grande diversidade cultural, porque essa diversidade não haveria de ser observada no passado também?”

As comparações feitas na pesquisa revelaram que a diversidade cultural dos primeiros grupos a habitar densamente o leste da América do Sul era muito mais diversificada do que se pensava até então. “Também mostram uma diferença muito clara sobre a cultura Clovis, que até pouco tempo se pensava que era a mais antiga das Américas”, ressalta o arqueólogo. “Ainda que recentes dados de DNA antigo indiquem alguma relação, as evidências culturais mostram claramente que herança genética e herança cultural não caminham sempre juntas. Os dados parecem indicar que as culturas da América do Sul surgiram de maneira independente das da América do Norte, talvez com algumas exceções, mas mais estudos ainda são necessários.”

A pesquisa foi realizada no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) do IB, coordenado pela professora Mercedes Okumura, onde Moreno de Sousa faz pós-doutorado. Os estudos sobre a contribuição das geociências para entender se mudanças ambientais estariam ligadas a mudanças culturais no passado foram liderados pelo geólogo Pedro Cheliz, doutorando da Universidade de Campinas (Unicamp), e contam com a participação da zooarqueóloga Gabriela Mingatos, colaboradora do LEEH e doutoranda no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também do professor Astolfo Araujo, do MAE.

Mais informações: e-mail jcmorenodesousa@usp.br, com João Carlos Moreno de Souza, e okumura@ib.usp.br, com a professora Mercedes Okumura

 

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