Tratamento de tuberculose e HIV desafia sistema de saúde de presídios

Pessoas com mais de 25 anos são as mais expostas à infecção conjunta de tuberculose e HIV nas instituições carcerárias paulistas

 21/06/2021 - Publicado há 4 meses
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Pessoas com mais de 25 anos são as mais expostas à infecção conjunta de tuberculose (TB) e à causada pelo vírus HIV nas instituições carcerárias paulistas, segundo pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP em 112 unidades prisionais do Estado. E, independente das condições sanitárias, as unidades prisionais do Estado de São Paulo ainda enfrentam desafios no tratamento dessas duas doenças associadas. Entre as pessoas com coinfecção TB e HIV, 60% apresentaram desfechos desfavoráveis, que, segundo a pesquisa, vão desde o abandono do tratamento até o óbito.

A situação dessa população ecoa diante dos números gerais do Brasil, uma vez que o País convive com alta incidência de TB e infectados pelo HIV. Apenas em 2020, foram 66.819 casos de TB e 642 mil positivos para o HIV. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa marca colocou o Brasil como um dos países com maior número de casos dessas doenças no mundo, ao lado da Índia, China e Moçambique. 

Como um dos grupos mais atingidos e, portanto, vulneráveis, a população carcerária foi alvo da pesquisadora da EERP, Nanci Michele Saita, que caracterizou o cenário de assistência à saúde prestada às pessoas privadas de liberdade com coinfecção tuberculose e HIV no Estado de São Paulo, bem como analisou os fatores associados aos desfechos desfavoráveis do tratamento da TB nas pessoas privadas de liberdade que viviam com HIV.

Num primeiro momento, a pesquisadora se deteve em 112 das 168 unidades do Estado de São Paulo, identificando que em todas elas as pessoas privadas de liberdade sintomáticas respiratórias recebiam tratamento e acompanhamento em saúde para as duas infecções. Mesmo assim, avalia a pesquisadora, “a oferta de tratamento para coinfecção TB e HIV pode ser melhorada já que algumas unidades apontaram a não realização do rastreamento da TB”. Essas unidades, segundo Nanci, também necessitam de atenção e suporte para “melhorar a oferta de terapia antirretroviral, de tratamento diretamente observado, que se refere à supervisão da ingestão medicamentosa por algum profissional”. Outra questão levantada pela pesquisadora diz respeito ao déficit no número de enfermeiros nos serviços de saúde prisional.

Fatores de risco para TB-HIV nas prisões

Além da idade, verifica-se que as pessoas com HIV estão mais suscetíveis a desenvolver TB em função da queda no sistema imunológico, inclusive apresentam maior chance de desenvolver a forma clínica extrapulmonar da TB, que geralmente se desenvolve em órgãos como rins, gânglios, entre outros. “Ademais, dentre os fatores de risco para o desenvolvimento da tuberculose em pessoas com HIV destaca-se o uso de álcool, mesmo sendo proibido dentro das unidades prisionais”, diz Nanci.

A pesquisadora conta que os indivíduos na prisão acabam, muitas vezes, não realizando o tratamento corretamente da TB, com grande porcentual de abandono do tratamento medicamentoso, podendo agravar o quadro clínico e resultar no óbito. Verificou-se também que aqueles que realizam tratamento da TB autoadministrado têm 60% mais chance de ter um desfecho desfavorável. 

Para Nanci, as unidades prisionais necessitam de mais profissionais de saúde para acompanhar o tratamento, rastrear e diagnosticar os pacientes como ações instituídas na rotina, além de “manejar os efeitos dos medicamentos e conscientizar os pacientes sobre a importância de continuar o tratamento”.

Apesar dos desafios apresentados, a pesquisadora destaca a relevância do Estado de São Paulo na oferta de ações e serviços de saúde no sistema prisional, especialmente para o enfrentamento da TB e HIV. “Muitas vezes a pessoa privada de liberdade tem seu primeiro acesso à saúde no sistema prisional”, enfatiza. O estudo Coinfecção tuberculose-HIV em unidades prisionais: análise dos fatores associados ao desfecho dos casos é parte do doutorado de Nanci, apresentado à EERP em dezembro de 2020, com orientação da professora Aline Aparecida Monroe.


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