Redes sociais são solução e problema na luta pelas causas sociais

Especialista diz que a internet pode ajudar a colocar os protestos em evidência, mas também pode prejudicar o combate à discriminação

O desenvolvimento de novas tecnologias trouxe uma revolução em diversas áreas, e também mudou a forma da sociedade se relacionar. Nesse aspecto, as redes sociais atuam como ferramenta na luta contra a opressão sofrida pelas minorias, que ganha cada vez mais espaço, especialmente nessas redes. Exemplos não faltam, casos recentes como os protestos contra o racismo, na campanha Black Lives Matter (“Vidas negras importam”), nos Estados Unidos, demonstram que as pessoas parecem estar cada vez mais engajadas nas causas sociais e usam as redes para se organizarem. 

Mas pode não haver um motivo único para o aumento das lutas contra o preconceito, isso pode ser também um sinal do desenvolvimento de princípios da própria sociedade, que hoje prega a igualdade, como conta o professor e especialista em pesquisas sobre a sociedade moderna contemporânea Reinaldo Furlan, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. “Estamos assistindo ao aumento desses protestos por conta da ameaça que a defesa desses valores está enfrentando atualmente, em todo o mundo. Isso é visto como um risco de retrocesso, por setores mais liberais da sociedade, ou de correção de rumo, por setores mais conservadores.”

Além do medo do retrocesso, citado por Furlan, a sociedade se mostra cansada de violência que, muitas vezes, está ligada à intolerância e ao preconceito, explica a antropóloga e professora Francirosy Barbosa, também da FFCLRP, já que, segundo ela, “não é concebível mais uma sociedade que tenha isso como princípio, porque leva diretamente à violência e a maioria não aguenta mais isso”. A professora destaca que os protestos são muito importantes “porque é preciso se opor a qualquer tipo de violência que esbarre contra a dignidade humana”.

Os especialistas chamam a atenção também para a presença cada vez maior dos jovens nessas lutas. Mais engajados e envolvidos com as causas sociais, os jovens têm o entusiasmo e uma força natural da juventude, que são importantes nessas lutas. “As sociedades modernas se caracterizam pela transformação do presente e a utopia é parte fundamental nesse processo, e os jovens representam isso, são mais utópicos”, explica Furlan.

Para Francirosy, os protestos são fundamentais, mas não podem ser a única forma de luta pela mudança, e “é preciso ter uma estruturação na educação, nas leis e nos processos democráticos”. Além disso, é necessário ter o apoio dos governantes, para que eles defendam cada vez mais as causas progressistas. “Enquanto não trabalharmos com a diversidade e no acolhimento às pessoas que sofrem preconceito, não teremos grandes mudanças.”

Tanto Francirosy quanto Furlan citam o sistema de cotas em universidades públicas, para etnias que foram marginalizadas ao longo dos anos, como uma medida de luta contra a discriminação.

Outra questão levantada pelos pesquisadores é o preconceito enraizado. Segundo Furlan, “é mais fácil mudar de ideias do que comportamentos”, então, muitas vezes, não é possível perceber atos preconceituosos durante o cotidiano. Ele ainda destaca que a igualdade entre as etnias pode trazer benefícios a todos.

O avanço da tecnologia e o surgimento e crescimento das redes sociais entram como aliados nessas lutas. A internet, nesse caso, pode dar voz às pessoas que não tinham e serve como espaço de denúncias e desabafos. Apesar disso, Furlan ressalta que “as redes sociais são ao mesmo tempo a solução e o problema”. Segundo o professor, a publicação dos fatos pode contribuir para inibi-los, mas a comunicação virtual “pode dessensibilizar o cuidado que devemos ter com as pessoas envolvidas”.

Ouça no player acima a entrevista dos professores Reinaldo Furlan e Francirosy Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP ao Jornal da USP, Edição Regional.

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