Para especialistas, é hora de acabar com a cultura do “homem não chora”

Masculinidade tóxica gera estereótipos ultrapassados atrelados ao papel masculino na sociedade, mina a individualidade e leva à violência

 Publicado: 23/09/2022

Texto: Laura Oliveira

Arte: Ana Júlia Maciel

Repensar e ressignificar o papel do homem na sociedade têm se tornado essencial frente a estereótipos que reforçam comportamentos como, por exemplo, o de que homem não chora, que deve ser corajoso e provedor da casa. A discussão sobre a denominada masculinidade tóxica tem se mostrado essencial para que o homem se desvincule e não corrobore para a manutenção do padrão, dando espaço para a sua individualidade. Estas são as ideias defendidas por especialistas no assunto, como o historiador Marcos Vinicius Felinto dos Santos.

Para o historiador, a criação dos estereótipos associados ao masculino acontece ainda na infância com a promoção da competitividade. “Nos meninos vai ocorrer um forte estímulo para que eles sejam mais fortes, para que eles sejam melhores, para que eles suportem, e tudo isso é bastante impossível.” Santos acredita que uma das principais consequências desse comportamento no homem é o silenciamento interno ou a minimização da subjetividade, o que ocasiona “uma falta de recursos para se observar no mundo, para se observar em relação aos próprios desejos, às demandas internas, o que se quer de si”, afirma.

O silenciamento parece ser apenas uma das consequências da criação de padrões masculinos. O psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, destaca que o hiperindividualismo, gerado a partir do momento em que o homem é obrigado a resolver todas as suas dificuldades e obstáculos, torna-o predisposto a diversos sintomas associados à saúde mental, como, por exemplo, à violência.

Christian Dunker – Foto: Divulgação

Mas mesmo que a masculinidade tóxica cause danos à saúde mental, os homens nem sempre procuram ajuda psicológica. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados na Pesquisa Nacional de Saúde, 69,4% dos homens procuraram um psicólogo em 2019. Para as mulheres, esse porcentual alcança 82,3%. Além disso, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as taxas de suicídio no Brasil são três vezes maiores entre homens do que mulheres.

O professor e psicólogo social Sérgio Kodato, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, afirma que a família tem papel essencial na construção desses estereótipos. “Todos nós lembramos desse palavreado, ‘olha, não faça isso porque vai estar parecendo Mariquinha’, ‘olha, homem não chora’, ‘olha, você não pode expor seus sentimentos, isso é coisa de homem fraco, não de macho’”, diz Kodato.

Já o professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Rodolfo Borges dos Reis, especialista em Urologia e câncer de próstata, acredita que é preciso repensar a educação das gerações mais jovens. “Existe um padrão cultural da mãe levar a filha ao ginecologista e da filha fazer os seus exames periódicos, isso há várias gerações. Já que o homem ainda não está nesse ponto, nós precisamos educar as novas gerações para que eles se sintam seguros e entendam a importância de procurar urologista e do homem cuidar da sua própria saúde.”

Sérgio Kodato - Foto: FFCLRP/USP

Apesar disso, a formação do homem não depende única e exclusivamente da família; para Kodato, a mídia também é grande influenciadora desses padrões, criando imagens de “masculinidades de super-homem”. “Tudo isso leva à veiculação de um ideal de masculinidade que poucos conseguem atingir.” De acordo com o professor, esses moldes geram frustrações e levam os personagens masculinos a adotarem princípios como os de Maquiavel, e que “mais vale a pena ser temido do que amado”.

As consequências do comportamento tóxico vão além da saúde mental e se abrigam também na saúde física. Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência em Saúde do Homem, vinculado ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em 2018, mais de 50% dos homens só procuram ajuda quando o quadro está avançado e exige intervenção cirúrgica. 

O distanciamento dos homens quanto ao atendimento médico, diz o historiador Santos, está associado à noção de força que o modelo de masculinidade impõe. De acordo com Santos, essa força impede que “os homens se abram e verbalizem que precisam de algum cuidado”. Para o psicanalista Christian Dunker, perceber-se vulnerável é algo inaceitável dentro da masculinidade tóxica. “Ela, a vulnerabilidade, é sentida como ofensa ao individualismo, à autonomia, à independência e à potência do homem, e isso acarreta todo um conjunto de relações problemáticas com as práticas amorosas.”

Rodolfo Borges dos Reis - Reprodução/ Jornal FMRPUSP

Santos acredita que a falta de espaços para o acolhimento do homem e para o desenvolvimento da sua subjetividade tem ação direta na manutenção do comportamento tóxico. “A falta de espaços onde compartilhar questões, onde colocar problemas, onde apresentar ideias, cria uma espécie de isolamento que, em termos de saúde, é bastante nocivo para muitos homens.” O historiador também ressalta a importância do combate à masculinidade tóxica em sala de aula, citando, por exemplo, “projetos ligados à própria educação sexual, haja vista sua importância para a minimização da violência de gênero”.


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