Linguistas chamam a atenção para o uso distorcido dos neologismos

Conhecimentos e vivências próprias de cada indivíduo influenciam compreensão de novos termos, por isso, segundo pesquisadora, tem que haver cuidado com o uso de neologismos, que podem ser utilizados para subsidiar e embasar um argumento e reforçar e dar continuidade a discriminações e estereótipos

 10/05/2021 - Publicado há 9 meses
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Neologismos são termos novos da linguagem, que está em constante transformação – Arte de Lívia Magalhães com imagens de Flaticon e Pixabay

 

Em constante transformação, a vida em sociedade é profícua fonte de novas palavras a nomear diferentes conceitos, criações artísticas, descobertas científicas e conhecimentos em geral. E estes novos termos, conta a professora Ieda Maria Alves, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, recebem o nome de “neologismos”.

O que são neologismos e como são utilizados

Além de expressões emprestadas de outros idiomas – o inglês, atualmente, é o que “mais empresta palavras para o português brasileiro”, os neologismos são criados nos meios de comunicação, revistas, textos literários e nos meios digitais, tornando-se essenciais para a comunicação. Segundo a professora Ieda, para que “possam expressar-se de acordo com suas necessidades comunicativas e designar novas realidades”, os grupos sociais de uma língua precisam e podem formar novas palavras. Assim, os neologismos derivam de “modelos de formações já existentes”, especialmente dos processos de derivação e composição das palavras.

Nesse processo de criação de novas palavras, é importante entender a relação do falante com os neologismos e seus significados. A professora Deise Maria Antonio Sabbag, do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, lembra que cada indivíduo mantém uma compreensão particular das palavras. Assim, quando atribui um neologismo a alguma coisa ou a alguém “essa palavra está intrinsecamente carregada de significados” e assim “está nomeando, rotulando, classificando” e “separando coisas ou indivíduos por meio de suas diferenças e suas semelhanças”.

Como as pessoas são diferentes – possuem conhecimentos de mundo e linguísticos diferentes -, suas vivências e culturas influenciam a compreensão dos neologismos. E este é o motivo, segundo a professora, para o uso distorcido de termos como “gordofobia”, “transfobia” e “LGBTfobia”. Normalmente utilizados para denotar preconceitos estruturais da comunidade, podem, ao contrário, reforçar intolerâncias e preconceitos, principalmente nas redes sociais. Por isso, Deise alerta sobre os cuidados no uso dessas novas expressões na conscientização acerca de intolerâncias que precisam ser vencidas e não reforçadas.

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Deise reforça a dependência do interlocutor para a aplicação das palavras: “Nós temos que ter muito cuidado porque, dependendo do falante, ele está usando esse neologismo para subsidiar e embasar o argumento dele”, reforçando  a continuidade de discriminações e estereótipos. Como saída para a questão, Deise aposta na linguagem neutra e propõe também o debate social sobre o uso dessas expressões.

O emprego pejorativo de um neologismo, afirma a professora, acontece nas situações em que o indivíduo “associa conceitos que depreciam, exprimindo e ratificando preconceitos”, sendo, então, necessário refletir sobre o emprego dos neologismos, suas origens e elementos que os constituem.


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