Diferenças culturais no Catar chamam atenção na Copa do Mundo

Francirosy Campos Barbosa, antropóloga e professora da USP, faz recomendações para que os costumes do país sejam respeitados e para evitar situações constrangedoras

 25/11/2022 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 26/11/2022 as 16:11
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O  importante é que as regras e os comportamentos vigentes no Catar sejam respeitados – Foto: Pixabay – Fotmontagem Jornal da USP

Primeiro anfitrião da Copa do Mundo no Oriente Médio, o Catar é um país majoritariamente muçulmano. Cerca de 70% da população do país segue o Islã e as leis, costumes e práticas catarianas têm origem na religião. Quem já está no país ou quem vai embarcar nas próximas semanas para torcer pela seleção brasileira na Copa do Mundo deve considerar alguns cuidados relacionados às diferenças culturais que, se não forem observadas, podem causar embaraços para quem visita aquele país.

Francirosy Campos Barbosa – Foto: Arquivo pessoal

A antropóloga e professora Francirosy Campos Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, explica que o Catar possui diferenças em relação ao Brasil e a muitos costumes brasileiros. “As diferenças vão desde as relações pessoais até o consumo e comercialização de bebidas alcoólicas, o que tem sido alvo de muitos questionamentos por parte dos brasileiros”, alerta. Para a professora, o importante é que as regras e os comportamentos sejam respeitados. “Você está indo para a casa do outro e o outro tem regras que, obviamente, são diferentes das nossas regras, da nossa maneira de ver a vida”, defende a antropóloga. Mesmo assim, ela pondera: “Por outro lado,  é um país extremamente hospitaleiro. Aonde há muçulmanos, há uma hospitalidade muito grande”.

Comportamentos discretos em espaços públicos

Um dos temas que têm sido alvo de críticas desde o anúncio do país como sede da Copa do Mundo é o fato de a homossexualidade ser considerada crime no Catar, é haram (proibido) pelo Islã, e a legislação não deve mudar por causa do evento esportivo. Para a professora, a melhor forma de se prevenir é “evitar a exposição nos espaços públicos”, um conselho aplicável também para os casais heterossexuais, visto que as demonstrações públicas de afeto não são comuns no país.

No Catar, assim como em outros países muçulmanos, pessoas de sexos opostos não costumam se cumprimentar com apertos de mão, beijos e abraços. “O homem não toca na mulher, a mulher não toca no homem, porque, na verdade, a gente só tem intimidade do toque com pessoas da nossa família interna. Com as pessoas que não são da família, você mantém o recato, a modéstia, a educação, o distanciamento. Isso é muito bem visto no Islã”, diz Francirosy.

O conselho dado pela professora é para que o cumprimento seja feito apenas verbalmente, “basta falar Assalamu Aleikum (expressão árabe que significa ”que a paz esteja sobre vós”) ou bom dia, boa tarde, boa noite. Isso não é falta de educação. Ao contrário, isso para o muçulmano é um respeito profundo”.

Em relação a bebidas alcóolicas, o país não permite a comercialização nem a consumação nas ruas e, mesmo durante o evento, só serão comercializadas em lugares licenciados, como hotéis, bares e alguns restaurantes. A causa, explica a professora, também está ligada à religião, que proíbe “qualquer bebida que altere a consciência”, incluindo o consumo e a comercialização. Por isso, em geral, a “grande maioria” dos muçulmanos evita frequentar lugares onde há bebidas alcoólicas e “alguns comerciantes catares se negam a comercializá-las”.

Vestimentas religiosas e tradicionais

Sobre as vestimentas usadas no país da Copa, Francirosy explica que, além de estarem alinhadas com o Islã, trata-se de uma questão cultural local. As mulheres se vestem com uma túnica preta, a abaya, e um lenço na cabeça, o hijab, enquanto os homens se vestem com uma túnica branca (dishdasha) e o lenço, chamado ghutra, preso na cabeça por uma corda, geralmente, preta.

Para as mulheres, o uso do hijab, composto de lenço na cabeça e as vestimentas modestas, é uma “obrigação alcorânica”, uma conduta que “muitas das mulheres acabam buscando fazer como a sua devoção religiosa”. Já a vestimenta masculina, além da modéstia, está muito ligada a questões culturais. “É importante dizer que é esse tipo de roupa que o profeta Muhammad usava. Então, é muito comum ver muçulmanos vestidos com essas túnicas brancas.”

Os trajes não são obrigatórios para turistas estrangeiros. Mas as recomendações são para que as vestimentas das mulheres cubram joelhos, ombros, colo e barriga, e evitar a utilização de roupas que marquem o corpo ou que sejam transparentes.

Apesar das diferenças culturais, Francirosy recomenda que, aqueles que estão pensando em visitar o Catar, vão e experimentem o que eles têm a oferecer e conheçam o estilo de vida, respeitando os costumes e leis daquele país. “Eu acho que o mais importante é a gente compreender que essas regras existem e respeitá-las, tentar conciliar, compreendê-las na medida do que é possível. Isso não significa aceitar, concordar com essas regras. Mas experimente o Catar, a hospitalidade catariana, e se deixe permear por esse estilo de vida e por essa forma de pensar”, sugere a especialista.


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