Michelle Bachelet disse que vivemos em um mundo de desigualdade espantosa, semelhante ao início do século 20 – Foto: Flickr

“Vivemos em um mundo de desigualdade espantosa”

A afirmação de Michelle Bachelet, alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, é comentada pelos professores Rafael Villa e Eduardo Marques

 28/06/2022 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 15/07/2022 as 8:03

Texto: Simone Lemos

Arte: Rebeca Fonseca

A alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, em final de mandato e sem a pretensão de se candidatar novamente, está preocupada com a desigualdade no mundo. Durante sua participação na 50ª Sessão do Conselho, realizada em Genebra, na Suíça, disse que “vivemos em um mundo de desigualdade espantosa, um estudo estimou que estamos hoje a nível global como no início do século 20”

Para Rafael Villa, professor de Relações Internacionais do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o que a alta-comissária está querendo dizer é que “a guerra da Rússia com a Ucrânia não é um fator determinante. Outros fatores, como a falta de políticas públicas, uma pobreza que virou um fator sistêmico, inercial, o próprio fato da pandemia e agora esse conflito internacional que afeta tanto o preço dos combustíveis como dos alimentos em todo o mundo, acabam fazendo com que esses fatores tenham um impacto maior na pobreza e extrema pobreza internacional”.   

Efeitos da guerra

Rafael Antonio Duarte Villa – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Já para Eduardo Marques, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e também diretor do Centro de Estudos da Metrópole da USP, a afirmação de Michelle Bachelet pode ser entendida de duas formas combinadas entre si. “Primeiro, de uma maneira direta, os efeitos da guerra da Ucrânia sobre o preço do petróleo, o preço dos grãos pelo bloqueio russo, exportação de grãos da Ucrânia. A piora da economia mundial por conta da incerteza que uma guerra dessas proporções com os jogadores envolvidos pode ter, inclusive com uma escalada dessa guerra num conflito muito mais sério.”

Mas essa realidade não é nova. O professor cita que há uma segunda dimensão na afirmação de Michelle Bachelet, a de que “os efeitos negativos econômicos sobre a pobreza e desigualdade se sobrepõem a níveis de desigualdade de pobreza muito grandes agravados pela pandemia da covid 19, mas já existentes previamente por conta de dimensões estruturais da desigualdade no mundo”. A ausência de políticas públicas de inclusão nacional e internacional e o aumento da renda seriam o ponto central nessa realidade, diz o professor Villa. Ele cita que “as economias industrializadas estão mais preocupadas neste momento em solucionar os problemas dos alimentos, da subida da inflação decorrente da guerra e menos com iniciativas para fazer frente a isso”.     

Declínio de renda

Michelle Bachelet também falou que, “enquanto a guerra na Ucrânia continua a destruir as vidas de muitos, provocando caos e destruição, os 20% mais pobres do mundo estão passando pelo mais grave declínio na renda e os 40% mais pobres ainda não começaram a recuperar suas perdas”. O cientista político Rafael Villa acredita que há esperança em países da América Latina com os novos governos de esquerda, como o de Gustavo Petro, presidente esquerdista da Colômbia. “Os governos de esquerda são mais sensíveis e têm mais iniciativas, políticas públicas, de inclusão social e de distribuição de renda, mas esses novos governos ainda estão começando.”   

Eduardo Marques – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O professor Marques não é otimista com relação à melhora das condições de renda no Brasil, ele acredita que a situação pode piorar. Condições para a melhora da distribuição de renda e redução da pobreza estão associadas à existência de políticas públicas que consigam promover redistribuição, crescimento econômico e oferecer políticas sociais de maneira universal.

“Eu não acho que isso esteja muito no horizonte imediato. Eu acho que os países centrais tendem a melhorar, assim como sua situação econômica. A situação brasileira está indo na direção contrária. A única forma de reverter esse processo é reverter as políticas econômicas e sociais que o governo federal tem promovido ao longo dos últimos anos, recolocando o Brasil na direção que ele vinha trilhando desde a redemocratização, com diferenças pontuais localizadas e setoriais importantes variando entre os governos e entre setores de políticas públicas, mas você tem um processo virtuoso de redução das desigualdades, de melhora das condições sociais do Brasil iniciada na promulgação da Constituição de 88 até 2015, quando se iniciou um processo de reversão e depois reverteu muito a partir desta gestão federal. Qualquer melhora da situação no caso do Brasil passa por uma recomposição do conjunto de políticas federais.”


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