Violência policial é sintoma de fragilidade política das instituições

Bruno Paes Manso diz que o número de mortos pela Polícia Militar em 2020 ultrapassou o maior registro, que foi em 2001, mesmo com a quarentena

jorusp

A morte de George Floyd nos Estados Unidos foi o estopim de uma discussão sobre violência policial, não só em terras americanas como também brasileiras. Soma-se ao fato o aumento de casos de violência policial em vários Estados do Brasil. Bruno Paes Manso, mestre e doutor em Ciência Política e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, fala sobre o assunto nesta série especial, em entrevista ao Jornal da USP no Ar, e aponta que o Brasil é o país com maior número de homicídios do mundo, mesmo sem estar presente em nenhuma guerra, e “isso é um sintoma da fragilidade política das instituições”.

Em termos históricos, por volta da década de 1950, com a urbanização rápida das principais cidades brasileiras, a violência passou a aumentar, pois a organização da chegada do fluxo de pessoas saídas do campo foi improvisada. O pesquisador conta que, com a criação da Polícia Militar e as forças de segurança que teriam papel crucial na implementação da ditadura de 1964, passa a ser realizado um patrulhamento territorial e ostensivo em bairros considerados como perigosos. Isso contribuiu para que a ação da polícia se tornasse mais violenta.

De janeiro a maio de 2020, o número de mortes pela Polícia Militar no Estado de São Paulo bateu recorde e chegou a 440. É o maior número já registrado desde 2001, mesmo com a quarentena. “Precisamos entender que isso é um contrassenso. Com as pessoas saindo menos para a rua por conta da pandemia, o número de homicídios deveria diminuir, mas esse crescimento foi registrado em vários outros Estados, como o Rio de Janeiro, que passou por verdadeiras chacinas em abril”, relata Manso.

As razões desse crescimento podem ter relação com o discurso defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e também a pressão enfrentada todos os dias pelos profissionais da segurança pública. “Essa estrutura que se cobra da polícia, de constante guerra ao crime, torna a vida do policial muito sofrida, e ele veste essa carapuça. Quando alguém passa a legitimar esse discurso de extermínio do inimigo, por exemplo, eles acabam por entrar em sintonia com esses ideais por conta do próprio cotidiano, mesmo que essas atitudes nem sejam estimuladas por seus oficiais”, explica o doutor.

Para modernizar a polícia, Manso acredita que seja necessário não só investir na formação dos policiais, com aulas sobre direitos humanos e treinamento permanente para os que estão nas ruas, mas também estudar com inteligência o mercado ilegal vinculado ao crime, para tirar a força financeira desses grupos criminosos atuantes em diferentes bairros. “Ao invés de mandar policiais todos os dias para pegar essas pessoas, seria mais efetivo investir nessas investigações e estrategicamente enfraquecer esses grupos. Precisamos repensar esse modelo de ‘enxugar gelo’, que só causa mais revolta contra o Estado. Falta vontade política para construir soluções à base do diálogo e aproximar a polícia da sociedade em uma relação de confiança, e não medo”, diz.

Saiba mais ouvindo a entrevista na íntegra.


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