Violência contra a mulher vai muito além da agressão física

A longo prazo, vítimas podem desenvolver traumas psicológicos, depressão e transtorno de ansiedade; a recomendação, diz Renata Abduch, é procurar a unidade de emergência mais próxima para receber cuidados necessários

 08/12/2020 - Publicado há 2 anos  Atualizado: 09/12/2020 as 11:49
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Violência doméstica já chega aos 120 mil casos em 202o – Gemahcastro via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

“No começo era tudo perfeito. Ele era uma pessoa incrível e maravilhosa com quem eu queria me casar.” Essa é uma memória comum de inúmeras mulheres que, assim como a estudante de psicologia Alana Vieira, sobreviveram a um relacionamento abusivo. Na maioria dos casos, essas histórias começam bem, mas terminam em agressões físicas, psicológicas, sexuais ou morte. Segundo a médica Renata Abduch, responsável pelo Serviço de Atenção à Violência Doméstica e Agressão Sexual (Seavidas) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, a violência traz marcas que essas vítimas não carregam apenas na pele, mas também na saúde física e mental. 

Como Alana, outras 263 mil mulheres foram agredidas por maridos, namorados ou ex-companheiros e registraram ocorrências, invocando a Lei Maria da Penha, em 2018. Este ano, as vítimas de violência doméstica já chegaram aos 120 mil casos, de acordo com o Monitor da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no Período de Isolamento Social do Instituto de Segurança Pública (ISP). Segundo dados referentes aos seis primeiros meses de 2020, divulgados pelo Monitor da Violência, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, há ainda outras 1.890 vítimas que não podem mais contar suas histórias.

Sobre sua experiência, a estudante Alana diz que viveu “os dois piores anos” de sua vida. Afastada dos amigos e da família pelo ex-parceiro, enfrentou o pânico e a ansiedade durante todo o relacionamento. E era apenas uma adolescente; tinha 14 anos quando iniciou o namoro, mas já se depreciava como “mulher”. “Ele fazia com que a minha autoestima fosse péssima, me sentia uma mulher horrível e uma pessoa ruim”, diz a estudante, adiantando que só conseguiu se separar do companheiro após entender que o comportamento dele não era o esperado para uma relação saudável.

Alana sobreviveu, mas os sintomas psicológicos da agressão permaneceram por quase um ano. Fato que pode se repetir com vítimas de violência. Segundo a médica Renata, após episódios de agressão como os sofridos por Alana, a mulher pode desenvolver transtornos psicológicos, como stress pós-traumático, depressão, transtorno de personalidade e problemas de autoestima que, em último caso, podem levar ao uso e abuso de drogas e álcool. 

E esses sintomas são importantes sinais de alerta sobre essas agressões, lembra a médica, insistindo para que os profissionais de saúde fiquem atentos para “dar o espaço que essa vítima precisa para trazer questões, às vezes muito antigas, que culminam com esses sinais”. Além do psicológico, Renata alerta ainda para as consequências físicas da violência, como as infecções sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada, que podem acontecer em decorrência do abuso sexual. 

Em Ribeirão Preto, maioria das vítimas é menor de 13 anos 

Ribeirão Preto reflete o cenário nacional. Segundo a médica, o Seavidas atendeu cerca de 485 vítimas de agressão em 2019. De janeiro a junho deste ano, o número de ocorrências já passa dos 350 casos. Do total, 58% eram crianças entre 0 e 13 anos de idade. Na maioria das ocorrências, o agressor é familiar ou pessoa próxima, por isso “há uma demora para perceber que aquilo não é afeto, mas sim um ato de violência”, diz.

58% dos atendimentos realizados pelo Seavidas foram para crianças entre 0 e 13 anos Colagem: Jornal da USP/Luana Franzão

A orientação, adianta Renata, é para que tanto as vítimas quanto as mães de crianças que passaram por algum tipo de violência procurem a unidade de emergência em saúde mais próxima, pois essa “está pronta para acolher e de portas abertas”. Diz que, ao contrário do que se pensa, não é necessário apresentar Boletim de Ocorrência para receber os cuidados físicos e psicológicos necessários após o ocorrido. “Essa mulher precisa entender que têm vários serviços à disposição que podem cuidar desse momento. Não somos a polícia, nós temos o papel de assistência à saúde da pessoa.”  

A médica afirma que, no processo para conseguir ajuda, a família desempenha um papel importante, pois tem o poder de direcionar essas mulheres para o aconselhamento profissional. Para isso, “uma das principais questões é o apoio e não julgar”, comenta. Questionar sobre a roupa que usavam ou se provocaram a agressão aumenta o sofrimento, alerta Renata, garantindo que “precisamos começar a nos sensibilizar com quem sofre violência”, pois “os danos são muitos em uma violência perpetrada”.

Em Ribeirão Preto, as vítimas de violência podem ser encaminhadas para o Serviço de Atenção à Violência Doméstica e Agressão Sexual (Seavidas) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. A unidade é o serviço de referência dos 26 municípios do Departamento Regional de Saúde XIII (DRS XIII). No caso das crianças e dos adolescentes, Renata afirma que, “se houver uma intervenção precoce, isso pode mudar todo o cenário”, pois o apoio médico e social, oferecido pelas unidades de emergência, ajuda as jovens a lidarem com as questões psicológicas causadas pelo trauma e, assim, evitar que, a longo prazo, venham a desenvolver algum tipo de transtorno. 

Ouça no player acima a entrevista completa da médica Renata Abduch e da estudante Alana Vieira ao Jornal da USP no Ar – Edição Regional 


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