Uso do álcool em gel aumenta acidentes com queimaduras

Com o advento da pandemia de coronavírus e a preocupação com a higienização das mãos, desde o dia 19 de março já houve mais de 100 ocorrências envolvendo queimaduras pelo uso do produto

O uso intenso do álcool gel a 70% para higienização das mãos, como um dos mecanismos de combate ao coronavírus, fez aparecer mais um problema para a saúde pública, o aumento do número de queimados nos hospitais de todo o País. 

Dados da Sociedade Brasileira de Queimaduras indicam que, desde 19 de março, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou a resolução 350, flexibilizando a comercialização do produto, ocorreram mais de 100 acidentes pela combustão do álcool gel no Brasil.

Só na Unidade de Queimados do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP) da USP o aumento foi três vezes maior em relação a igual período anterior à resolução, segundo o  professor Jayme Adriano Farina Júnior, chefe da Divisão de Cirurgia Plástica e diretor da Unidade de Queimados do HC-FMRP.

O professor lembra que esse álcool gel, agora largamente utilizado para higienizar as mãos, tem 30% de água e espessante, que dão a textura de gel, e 70% de álcool etílico, o que o torna altamente inflamável e com mais chances de acidentes de queimaduras. “A tendência de acidentes é pela inadequada manipulação de equipamentos na fabricação do produto, especialmente para fazer a mistura do álcool com o espessante.” 

Como exemplo, Farina Júnior relata que, num dos acidentes atendidos no Hospital das Clínicas, para misturar o álcool líquido a 70% com o espessante, ao invés de usar um mixer apropriado antifaísca, o paciente disse ter usado uma furadeira elétrica adaptada, que soltou faísca e causou uma explosão, o que “resultou em graves queimaduras de membros superiores e de face, incluindo os olhos”. 

O professor cita que também tem sido comum o aparecimento de pessoas queimadas por acenderem churrasqueira com o álcool gel a 70% e não tomarem os devidos cuidados. “Acender churrasqueira com álcool sempre é perigoso, pelo risco de explosão, pois deixam a garrafa próxima da chama. Além de atingir a pessoa que manipula é comum atingir aquelas próximas. Hoje já existem materiais próprios para isso, que diminuem muito a chance de explosões”. 

Outro alerta feito por Farina Júnior diz respeito à invisibilidade do álcool em gel quando pega fogo. Como não enxerga a chama, o indivíduo acaba se queimando e, “numa reação de reflexo, a pessoa pode fazer um movimento brusco e espalhar o álcool pelo corpo ou pela roupa e causar um acidente ainda mais grave”.  

Por isso, o professor pede cuidado com o uso do álcool gel dentro de casa e recomenda que, para a higienização em casa e para a prevenção da covid-19, deve-se usar água e sabão.  “Se for inevitável o uso do álcool, a pessoa não deve se aproximar de chamas, como as de vela, do fogão, da churrasqueira, nem acender cigarro.”

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.