Trump utiliza protestos nos EUA para alavancar campanha de reeleição

Para Kai Lehmann, presidente americano quer se apresentar como aquele que “restabelecerá a Ordem e a Lei” no país, mesmo que isso divida ainda mais a população americana, como lembra Wagner Menezes

A morte de um homem negro por um policial branco foi o estopim para uma onda de protestos nos EUA, pedindo o fim do racismo e da repressão policial contra negros, que se estendem há séculos. Iniciados no final de maio, já são mais de 350 cidades americanas e estrangeiras que reportam e reproduzem o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Mesmo organizados de forma pacífica durante quase todo tempo, o presidente Donald Trump exige que os Estados respondam e reprimam com violência os manifestantes.

Para ajudar a entender este momento, o Jornal da USP no Ar conversou com Kai Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, e Wagner Menezes, professor do Departamento de Direito Internacional da Faculdade de Direito (FD) da USP. “Dois fatos me chamam a atenção: esse movimento se sustentar em quase todos os Estados dos EUA, mesmo com uma pandemia, e sua internacionalização, com muitas manifestações grandes em várias partes do mundo”, analisa Lehmann. Para Menezes, essas manifestações, que saíram dos EUA, são uma resposta ao contexto do cenário político atual. “É uma negação de um processo construído ao longo dos últimos 70 anos”, afirma.

Causando divergências dentro do próprio governo, o presidente Trump parece utilizar os protestos para traçar uma estratégia eleitoral. Com eleição presidencial marcada para novembro, Lehmann acredita que Trump vá se apresentar na campanha de reeleição “como o presidente para restabelecer a ordem e a lei nos EUA”. Mesmo que, de acordo com Wagner Menezes, isso provoque ainda mais divisão da população, já que o uso desse discurso também serve para “alimentar a ignorância do eleitor médio de um grupo representativo”. Aliás, mostrar-se como “salvador da pátria” com um discurso populista é um plano recorrentemente utilizado por figuras políticas não só nos EUA, mas no mundo inteiro. 

Escute aqui a entrevista completa com o professor Kai Lehmann no player abaixo.

O professor Lehmann lembra que isso pode motivar a base de apoiadores do presidente dos EUA o suficiente para reelegê-lo. Em meio a esse plano, Trump evidencia suas tendências autoritárias, incompatíveis com a democracia, como alerta Lehmann. “Numa democracia, você não chama soldados [do exército] para as ruas e reprime manifestações da própria população. Isso não acontece em democracias estáveis e mostra muito a fragilidade da democracia americana.”

Dadas as divergências governamentais e o apoio de 2/3 da população aos protestos, o caminho da vitória está dificultado. Segundo o professor do IRI, se essas tendências se confirmarem, Donald Trump pode perder “e perder feio”. Para ele, o grande desafio do provável candidato do Partido Democrata, Joe Biden, que não agrada à ala de esquerda do partido, será manter o entusiasmo político dessas manifestações. “Se ele conseguir sustentar isso até novembro, há grandes chances de alta participação do eleitorado dele. […] Se ele conseguir isso, ele vai ganhar”, acredita Lehmann.

Wagner Menezes destaca que, neste momento, o mundo precisa urgentemente de líderes estadistas, políticos que estabeleçam pontes de diálogo entre diferentes classes sociais. “Infelizmente, não é isso que vemos tanto no Brasil quanto nos EUA e nos países da Europa”, diz. Segundo ele, o resultado disso é o oportunismo político, de um lado, e revoltas populares, de outro, lembrando novamente que esses dois aspectos acabam dividindo as populações.

Ouça a entrevista com o professor Wagner Menezes na íntegra no player abaixo.


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