Transtorno alimentar é decorrente de mau uso de insulina

Especialista explica que a diabulimia afeta 20% das mulheres que sofrem de diabete tipo 1

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A diabulimia é um transtorno alimentar ainda pouco conhecido, considerado um dos distúrbios mais perigosos e, nos casos mais graves, podendo levar à insuficiência cardíaca, amputação de membros e até à morte. Portadores de diabete tipo 1 tomam deliberadamente menos insulina que o necessário com o objetivo de perder peso, sendo isto a diabulimia. A diabete tipo 1 é autoimune e costuma ser diagnosticada na infância, ocorrendo quando o pâncreas não produz insulina suficiente. O tratamento prevê a aplicação de injeções diárias do hormônio, responsável por controlar a glicose no sangue e fornecer energia ao organismo.

O Jornal da USP no Ar conversou sobre o assunto com o doutor Fábio Salzano, coordenador da Enfermaria de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Ele explica que a diabulimia é um desdobramento de transtornos alimentares. “Na verdade, ela é um termo usado para quem apresenta diabete tipo 1 e que apresenta alterações alimentares. Em termos de diagnósticos, a diabulimia faz parte de alguém que tenha uma anorexia nervosa ou uma bulimia nervosa ou outro transtorno alimentar.”

Foto: Pedro Bolle

O especialista ressalta que o paciente começa a apresentar quadro de anorexia e bulimia devido à negativa de injetar doses corretas de insulina, a fim de perder peso. “Ele negligencia essa insulina. Isso faz com que os níveis de açúcar, a glicose no sangue, tornem os valores muito mais altos e a partir daí pode ter complicações decorrentes do aumento da glicemia sanguínea.” Mulheres que têm diabete tipo 1 apresentam a tendência de cerca de 20% para alterações relacionadas à diabulimia. Sobre a frequência de casos mais graves, há uma variação. “Para chegar a ter casos muito graves como, por exemplo, a perda total da visão, o mau funcionamento renal, que acaba levando a uma insuficiência grave a ponto de precisar de transplante, é muito raro. Mas veja, se 10% a 20% das mulheres podem ter essas alterações, elas estão se colocando num risco muito maior do que a própria diabete faz com que elas tenham”, afirma Salzano.

Quando identificado algum transtorno pelo endocrinologista, é fundamental também avaliação e acompanhamento psiquiátrico. E, neste ponto, o doutor Salzano aponta uma barreira para o auxílio às pacientes. “É muito difícil elas buscarem ajuda. Normalmente são os colegas endocrinologistas que fazem o encaminhamento ou avisam às famílias, e as famílias fazem com que as pacientes busquem ajuda. Infelizmente, a maioria acha que isso é algo que pertence a elas próprias e que não faz mal ficar usando, de uma maneira errada, a insulina, porque o que mais importa é atingir essa perda de peso.” A origem para o distúrbio é multifatorial, sendo desde uma distorção da imagem corporal, ao se comparar com padrões midiáticos de beleza, até fatores genéticos, como parentes apresentando depressão, consumo excessivo de álcool e distúrbios alimentares.

O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP oferece um Programa de Transtornos Alimentares, o AMBULIM, que presta atendimentos, via Sistema Único de Saúde, para pessoas que apresentam anorexia, bulimia e compulsão alimentar, que vão desde grupos de tratamentos a, em casos necessários, internação.

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