Tragédia de Brumadinho reflete urgência em inovação

Vanderley John, da Escola Politécnica da USP, ressalta que somente o avanço na tecnologia poderá solucionar os riscos de barragens de mineração

 26/02/2019 - Publicado há 3 anos
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Vanderley John diz que há diversas oportunidades de inovação nesta área para garantir a segurança da população e a preservação dos ecossistemas – Foto: Vinícius Mendonça/Ibama via Flickr-CC CC BY-SA 2.0

 

Os caminhos para reduzir o risco de tragédias como a de Brumadinho, em Minas Gerais, que completou um mês nesta segunda-feira, dia 25,  passam por um grande esforço de desenvolver novas soluções tecnológicas viáveis, com as universidades ajudando as empresas brasileiras a fazerem inovação. O professor Vanderley John, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica (Poli) da USP, defende que não há saída sem inovação. “Esses acidentes podem acontecer e refletem o limite da tecnologia. As soluções sempre podem ser melhoradas para reduzir os riscos, e esta deve ser a postura da engenharia.”

Vanderley John coordena um centro de pesquisa focado no desenvolvimento de materiais para construção ecoeficientes, que tem um contrato com a Vale, para desenvolver

Professor Vanderley John, Departamento de Engenharia Civil Poli-USP. Foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação FDTE.

algumas aplicações comercialmente viáveis para uma parte dos resíduos dessas barragens. Trata-se de uma Embrapii, unidade da Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, organização que estrutura a interação entre universidade e indústria. O professor explica que as barragens de mineração fazem parte de um modelo tecnológico vigente em quase todo o mundo, inclusive a do tipo de alteamento a montante, como as que entraram em colapso em Mariana e Brumadinho. “A barragem é um serviço até recentemente aceito como padrão na indústria mineral, e em cima deste acidente existe uma demanda por solução tecnológica, que começa pela mineração.”

Há diversas oportunidades de inovação nesta área para garantir a segurança da população e a preservação dos ecossistemas. Entre elas, aprimorar a tecnologia de mineração para gerar menos resíduos, utilizar os rejeitos para outras finalidades, como a construção civil, desenvolver novas técnicas para armazenar o excedente, como aterros ou outras soluções mais estáveis, e garantir que as estruturas das barragens existentes sejam reforçadas. “Para reduzir o volume de resíduos, é necessário tirar todo o minério tecnicamente possível. Menos volume e riscos. Isso implica uma mudança no processamento de minérios, e para isto é preciso inovação, investimento e todo um esforço”, explica o professor.

Para John, diminuir os resíduos gerados ou encontrar aplicações são soluções tecnológicas que demandam ir além. “Entre o estudo de laboratório e a inovação há um grande processo. É necessário transformar o resultado positivo da pesquisa em algo a ser produzido em escala industrial. Para isso há um problema de custo, de competitividade. O pesquisador conta que o grupo tem identificado muitas possibilidades para o material a ser reciclado nas barragens, e o desafio é transformá-lo em produtos reais no mercado, pois isso exige resolver o processo industrial, otimização de custo e impacto ambiental. A Embrapii busca levar as suas soluções ao amadurecimento tecnológico, ou, na sigla em inglês, Technology Readiness Level (TRL). A técnica, utilizada inclusive pela Nasa, orienta o processo de inovação para que ele não resulte no chamado “vale da morte da inovação”, ou seja, sem avanço no desenvolvimento e investimento na estrutura de fabricação e venda, o produto não ganha mercado, e em consequência, o problema permanece.

As tecnologias utilizadas no acompanhamento das barragens, atualmente,  não têm sido suficientes para dar alertas capazes de controlar os estragos. Vanderley John destaca a possibilidade de se desenvolver novas técnicas de gestão, tanto para monitorar como para aumentar a segurança das barragens existentes. “É absolutamente fundamental que as barragens que estão oferecendo riscos para as comunidades sejam reforçadas, tenham suas condições de estabilidade melhoradas.”

 

Por Amanda Rabelo – da Assessoria de Comunicação da Escola Politécnica


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