Taxação de livros demonstra preconceito à população da periferia

A opinião é da professora Bel Santos Mayer, para quem o livro físico, além de ser a base para outras formas de arte e das formações acadêmicas, é uma ferramenta de transformação da realidade dos jovens

 19/08/2021 - Publicado há 4 meses
Para um país que quer incentivar a cultura de leitura, medidas de barateamento de produção e distribuição são essenciais – Foto: Freepik

No dia 20 de agosto, acontecerá o evento A Periferia Lê, promovido pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, em que será discutido a proposta de taxação de livros e o impacto na cultura e nos leitores das periferias. O evento tem como enfoque discutir as problemáticas que a taxação de livros traria caso seja implementada, como a restrição do item a uma certa classe econômica, assim como as perspectivas das políticas de incentivo à leitura no País.

“Desde a Constituição cidadã de 1988, nós conseguimos assegurar a proibição de taxar livros, jornais, periódicos, papel destinado à impressão”, contou ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição a professora Bel Santos Mayer, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e membro da Rede LiteraSampa. Segundo ela, essa medida é muito importante, pois, para um país que quer incentivar a cultura de leitura, medidas de barateamento de produção e distribuição são essenciais na criação de uma cultura de leitura, na formação de leitores e funcionamento do mercado editorial de pequeno porte.

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O evento acontece após as justificativas da Receita Federal para tentar taxar livros, alegando que a taxação é justa, uma vez que as classes com maior poder econômico são as que mais leem. De acordo com a professora, o cenário na realidade é outro. De acordo com pesquisas realizadas em torno dos hábitos de leitura por classe econômica, as classes A e B são compostas de 17 milhões de leitores, contra 27 milhões das classes C, D e E. O levantamento também demonstra que, nas zonas periféricas, o consumo de livros está em ascensão. Para Bel, essa justificativa demonstra um preconceito direcionado às populações marginalizadas. Para essas populações, a leitura, além de ser um hábito de lazer, é uma forma de obter conhecimento importante para o futuro dos jovens leitores dessas regiões.

Para a professora, o livro físico, além de ser a base para outras formas de arte e das formações acadêmicas, é uma ferramenta de transformação da realidade desses jovens. Um levantamento feito pela Universidade Federal de Pernambuco demonstra que regiões com acesso aos livros, através de bibliotecas públicas, possuem índices de esperança de vida, de escolarização, de acesso à livre leitura diferente de áreas que não têm esses espaços. Ela destaca que a taxação de livros iria privar diversos jovens de ter acesso a essas possibilidades, uma vez que, por possuir uma baixa renda, essas populações irão se privar desse hábito em deferência a necessidades primordiais como moradia e alimentação. “Os livros fazem companhia, livros foram o jeito que muitas pessoas encontraram de continuar se movendo, de continuar indo para além do que a janela possibilitava ver”, conclui Bel.


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