Taxação de grandes fortunas pode garantir futuro econômico para a Argentina

Paulo Feldmann defende que a mesma medida não é adotada no Brasil porque, ao contrário do que ocorre no país vizinho, em nosso país os pobres não estão representados no Congresso

 11/12/2020 - Publicado há 2 anos

Muito se fala sobre o Brasil taxar as grandes fortunas, repetindo experiências adotadas ao redor do mundo. O assunto entra em voga, principalmente, em momentos de crise, além do apelo político que tal ato pode exercer em uma sociedade. E a Argentina, pensando na luta contra a pandemia e suas consequências, decidiu aprovar uma cobrança sobre grandes fortunas, tributando patrimônios maiores do que 200 milhões de pesos, ou seja, R$ 13 milhões. A pergunta que fica é: por que o tema não avança no Brasil?

“Essa questão é interessante. No Brasil, os pobres não estão representados no Congresso, ao contrário da Argentina. Esse é um problema muito sério que nós temos aqui”, comenta Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o professor explica que a máquina política argentina tem uma pequena maioria que tende para o lado do presidente Alberto Fernández, o que possibilita a adoção de medidas que protejam a população mais pobre.

“Hoje, no Congresso brasileiro, não há um partido que tenha uma participação grande e que tenha essa tradição de defesa das populações mais vulneráveis”, complementa Feldmann. Para ele, o partido que tinha essa tradição era o Partido dos Trabalhadores (PT), mas, para ele, hoje o PT é um partido que está isolado e que não consegue ter maioria em votações.

Apesar de Argentina e Brasil terem dificuldades financeiras, com a aprovação dessa medida, a Argentina já consegue pensar no futuro, pois os recursos utilizados não partirão dele próprio, mas da população mais rica, enquanto o Brasil, por exemplo, dificilmente conseguirá manter os auxílios existentes atualmente, pois não tem de onde retirar os recursos necessários. Feldmann explica que uma forma de tentar melhorar a perspectiva brasileira é focar em melhorar os índices de desemprego, pois, se não haverá auxílio emergencial, é mandatório que se consiga emprego para as pessoas.

A área de infraestrutura continua sendo o ponto a ser investido, pois ao mesmo tempo que resolve uma carência estrutural, também oferece empregos diversos. O problema, para o professor, é que apenas 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi investido em obras de infraestrutura em 2020, sendo que cálculos feitos por economistas indicam que 5% do PIB deveriam estar sendo investidos. Para o professor, uma da soluções seria atrair empresas estrangeiras, principalmente chinesas, alemãs e espanholas, para investir em nossa infraestrutura, mas atualmente não há aplicação de nenhuma política de geração de empregos no Brasil.


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