Restauração da Catedral de Notre-Dame se tornará legado deste tempo

Apesar dos prejuízos incertos, sociedade se mobiliza e franceses têm séculos de experiência, diz especialista

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A Catedral de Notre-Dame, atingida por um incêndio ontem (15), é um dos símbolos de Paris e abriga um tesouro arquitetônico e artístico que atrai 13 milhões de turistas anualmente. Além da famosa arquitetura gótica, a igreja destaca-se por suas pinturas, esculturas e vitrais tidos como obras-primas. Seu grande órgão é um dos instrumentos mais conhecidos do mundo no gênero. A igreja também entrou no imaginário coletivo por ser cenário do clássico O Corcunda de Notre-Dame, lançado em 1831 pelo escritor Victor Hugo. A construção do templo dedicado à Virgem Maria (Notre-Dame quer dizer, em português, Nossa Senhora) levou 180 anos: de 1163, quando começou a ser erguido sobre uma antiga igreja romana, a 1345. Antes, o terreno havia sediado um templo druida, um altar celta e antigos ritos cristãos. Localizada na Île de la Cité (uma pequena ilha no centro de Paris, rodeada pelas águas do rio Sena), a catedral foi restaurada diversas vezes em seus mais de oito séculos de existência.

“A catedral é fruto de um acúmulo de quase nove séculos de história. Foi afetada por vários conflitos e restaurada diversas vezes. Ao longo do tempo, recebeu novas relíquias e artefatos. Ela não é só um templo religioso, como também um marco da cultura francesa. É um símbolo da ascensão social da era das revoluções. Ficaram cicatrizes do vandalismo no século 18, por exemplo. É parte de cada um de nós, que temos a narrativa de Quasimodo nas nossas vidas”, argumenta o professor Paulo Garcez, professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

Incêndio na catedral de Notre-Dame de Paris (detalhe) – Fotos: Zuffe/LeLaisserPasserA38 (incêndio) via Wikimedia Commons

Com a sensibilização da sociedade com o sinistro, famílias ricas já se mobilizaram para facilitar a reconstrução, doando milhões de euros. O arquiteto espera que a reconstrução nos retorne a majestosidade do monumento. “Os franceses têm 2 séculos de experiência na reconstrução de edifícios. O conceito é devolver a imagem anterior, embora a obra seja necessariamente uma recriação. Usando fotos, pinturas, plantas e documentos técnicos, busca-se manter a vinculação da nova arquitetura com a memória da imagem”, esclarece Garcez.

Fora isso, o uso de materiais contemporâneos tem o objetivo não apenas de modernizar estruturas e acessibilidade, mas também evitar futuras fatalidades. O presidente francês Emmanuel Macron iniciou uma campanha prometendo: “Vamos reconstruir Notre-Dame”. O especialista alega que “a reconstrução da flecha no século 19 pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc foi um grande legado, a nova restauração pode ser a conquista do século 21”. Paulo Garcez afirma que as informações ainda são imprecisas. Só quando o acesso não apresentar mais perigos se terá a real noção dos prejuízos causados pelo sinistro.

“Aqui, há cerca de 7 meses, o Museu Nacional do Rio de Janeiro foi afetado por um incêndio de grandes proporções. Após ficar em chamas, o Museu do Ipiranga vem sendo preparado por uma reparação e restauração, que se iniciará agora”, aponta o professor. De acordo com ele, o sinistro francês deve redobrar nossas atenções para novas ocasionalidades, porém nos atentar às soluções lá aplicadas também.

O arquiteto chama atenção à atuação dos bombeiros, pelo rápido e eficiente resgate dos artefatos e relíquias no prédio. O reitor da Catedral, Patrick Jacquin, afirmou que a Coroa de Espinhos e a Túnica de São Luís estão a salvo. “É necessário ter estratégias em situação de crise. Analisar os riscos, depois estabelecer rotas e rotinas para salvaguardar objetos importantes, sem colocar vidas em perigo, a exemplo do que aconteceu no Castelo de Windsor”, declara Garcez.

Ele indica, de qualquer maneira, que a nave de pedra, peculiar à arquitetura gótica, é uma grande sorte, pois funciona como um escudo frente ao fogo. “No Brasil, as igrejas, sobretudo do período colonial, têm cobertura de madeira. Uma vez que as chamas se alastram, tendem a desabar sobre os salões dos templos, comprometendo tudo que está lá”, explica o docente. O planejamento contra riscos daqui tem de se adequar a essa situação.

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