Relação entre governo federal e a preservação da Amazônia continua conflituosa

Pedro Luis Côrtes comenta o congelamento de repasses ao Fundo Amazônia e outros acontecimentos importantes

jorusp

Um relatório divulgado recentemente pela Sociedade Americana de Meteorologia informou que a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera atingiu novo recorde histórico em 2018. Isso colocou o ano passado junto a  2015, 2016 e 2017 no infame pódio dos anos mais quentes desde o fim do século 19 – quando se iniciou a medição. Além disso, o Ministério do Meio Ambiente deu continuidade à sua contestação contra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e já planeja testar um monitoramento privado do desmate da Amazônia. Fechando o rol de acontecimentos, a Noruega seguiu os passos da Alemanha e congelou seu repasse de 136 milhões de reais ao Fundo Amazônia – dedicado à proteção da área.

O Ambiente é Nosso Meio desta semana, com Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, traz uma análise de toda a situação conturbada para tentarmos entender melhor o que está acontecendo. O professor comenta que o estudo sobre a emissão de gases de efeito estufa foi elaborado com base em contribuições de 470 cientistas de 60 países. O relatório apresenta pontos alarmantes, como o fato de o Ártico e a Antártida chegarem próximos do recorde negativo de extensão da camada de gelo, e o número acima da média de ciclones tropicais na Terra, por exemplo.

“Isso reforça a importância da preservação da Amazônia, pois toda a floresta é um imenso depósito de carbono. Quando ocorre o desmatamento, esse carbono é convertido em gás carbônico ou metano, aumentando a concentração desses gases na atmosfera. Isso incrementa o efeito-estufa e acelera os processos de mudanças climáticas, e nós estávamos recebendo recursos internacionais para isso”, explica.

No entanto, o horizonte é pessimista. Tanto a Alemanha quanto a Noruega suspenderam o envio de recursos para o combate ao desmatamento na Amazônia. “Essa possibilidade já vinha sendo considerada antes. Não foi por falta de aviso”, comenta Côrtes. O problema maior, segundo ele, é o crescente antagonismo que vem sendo suscitado por Bolsonaro com países outrora colaboradores da preservação amazônica.

“O governo deveria considerar – seriamente – a possibilidade de retaliação aos nossos produtos agrícolas na Europa. Se isso acontecer, será difícil o presidente Bolsonaro reverter essa situação e teremos um impacto muito significativo para a nossa cambaleante economia”, reforça o professor, que também coordena a Rede Internacional de Estudos Sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Enquanto isso, o governo se articula para trocar o sistema de monitoramento do desmatamento na Amazônia. Ao invés de aplicar os recursos no Inpe para aperfeiçoar os sistemas já existentes, o governo deve investir em um novo sistema de iniciativa privada, cujo custo deve ser de R$ 7 milhões. A alegação é de que esse sistema possui melhor resolução do que o utilizado pelo Inpe.

“O Ministério do Meio Ambiente mal utiliza os levantamentos atuais do Inpe, pois arrefeceu o combate ao desmatamento. Por que um levantamento mais detalhado seria de maior utilidade se o governo não fiscaliza? O que falta ao governo federal é – efetivamente – vontade política de combater o desmatamento. Os levantamentos do Inpe já seriam suficientes para realizar um bom trabalho de fiscalização”, conclui Côrtes.


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