Prognósticos climáticos poderiam evitar surtos de dengue

Especialista critica o desinteresse dos governos diante de relatórios que auxiliam na prevenção de problemas urbanos

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No programa O Ambiente É Nosso Meio desta semana, o assunto é dengue. A Prefeitura de São Paulo divulgou dados revelando que foram registrados 126 casos de dengue entre janeiro e fevereiro de 2019. No ano passado inteiro, a cidade teve 563 casos. No Estado de São Paulo, foram confirmados 4.595 casos este ano, enquanto em janeiro do ano passado foram 888. Por que estamos tendo mais casos de dengue do que no ano passado? Para falar sobre o assunto, o Jornal da USP no Ar conversa com Pedro Luiz Côrtes, professor da Escola de Comunicações e Artes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente e do Projeto Temático Fapesp Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista.

Há um componente climático importante em relação a essas doenças transmitidas por vetores. De acordo com Côrtes, entre 2015 e 2016, ocorreu o fenômeno do El Niño (alterações significativas na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, afetando o clima mundial). Em São Paulo, esse fenômeno provoca aumento da temperatura e aumento de chuvas mal distribuídas. “Você tem mais calor e mais umidade, isso favorece o surgimento de endemias provocadas pelo Aedes aegypti”, explica. Já entre meados de 2016 e 2018 ocorreu um outro fenômeno, La Niña, que provoca a redução das chuvas e da temperatura. Isso fez com que, nos últimos dois anos, os casos de dengue diminuíssem, uma vez que a proliferação do mosquito foi afetada. Agora, em 2019, suspeita-se da volta do El Niño, tornando o ambiente propício novamente para o vetor. “É uma coisa que deveria ter sido levada em consideração pela prefeitura e pelo governo do Estado”, opina o especialista.

A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti – Foto: Alexandre Carvalho / Governo de São Paulo

A população, contudo, também negligenciou o problema em face de acontecimentos passados. O surto recente de febre amarela ganhou protagonismo nos últimos anos, fazendo com que a dengue perdesse espaço no cotidiano das pessoas. Uma outra crítica que o professor faz é que o governo não dá importância para os prognósticos climáticos. “Muitos dos problemas que nós enfrentamos hoje poderiam ter sido atacados com antecedência”, ao atentar-se a esses relatórios. Inclusive foram produzidos prognósticos anteriores que alertavam para o cenário atual. “As campanhas deveriam ter sido iniciadas já no ano passado, antes que o El Niño começasse a mostrar as suas características”, diz Côrtes.

O professor ressalta ainda que os prognósticos climáticos gerados por instituições especializadas também facilitam na hora de lidar com outros problemas urbanos, a exemplo das enchentes e inundações. “O prognóstico climático indica qual vai ser o comportamento do inverno e qual o comportamento do verão.” Para ele, essa orientação é essencial na prevenção e preparação diante dos problemas que estão por vir. A previsão é de que o El Niño dure até maio deste ano.

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