Processo de desfavelização é marcado por violência

Para pesquisador que estudou a desocupação de Pinheirinho, em São José dos Campos, a urbanização em si é violenta

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O processo de remoção de favelas empreendido pelo poder municipal na cidade de São José dos Campos, em São Paulo, foi uma operação urbana que marcou de maneira decisiva o espaço da cidade. Esse processo revelou a face violenta do processo de urbanização, manifesta sobretudo para a população mais pobre. Diante da cidade vivida por eles como privação, surgem os movimentos de resistência à urbanização em suas variadas formas contestatórias.

No ano de 2002, iniciaram-se os primeiros passos do Habita São José, programa habitacional da cidade de São José dos Campos, que previa intervenções em todos os núcleos de favelas do município. O pesquisador Fabiano Felix Teixeira, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, buscou em sua tese analisar as consequências do processo de desfavelização, bem como as formas de resistências que surgiram como resposta.

A primeira remoção realizada pelo poder municipal abarcava um conjunto de três favelas. Fabiano Teixeira, aos 15 anos, morava perto de uma dessas comunidades. Ele afirma que a aproximação com o evento foi fator decisivo para sua produção; iniciação científica, trabalho de conclusão de curso e mestrado miraram, de alguma forma, as sequelas do Habita São José.

Em sua tese, O processo de desfavelização: das consequências às resistências, Teixeira utiliza-se, justamente, do primeiro processo de remoção como objeto de pesquisa, especificamente a Favela do Pinheirinho. A retirada dos moradores da comunidade foi marcada por forte violência policial, culminando em protestos em embaixadas brasileiras por todo o mundo, lembra o pesquisador.

Três áreas foram selecionadas para o desenvolvimento da pesquisa: a área de remoção, ou seja, lugar onde localizava-se a comunidade; a área de realocação, situada a 15 km em direção à borda da cidade; e, por fim, a área de ocupação, na qual 23 famílias que se recusaram a deixar a região central da cidade mantiveram, por 13 anos, suas residências em uma estação de trem abandonada.

Além de conduzir entrevistas nas três regiões, outros dados foram incorporados à pesquisa. As áreas de remoção sofreram um processo de verticalização, assim como a instalação de grandes empreendimentos, resultando em uma espécie de gentrificação, processo em que grupos sociais com maior poder aquisitivo passam a ocupar os espaços da população mais pobre. Nas falas dos moradores realocados nas periferias são encontrados termos como “segregação urbana”. As áreas de realocação encontram-se em uma região onde os serviços públicos não chegam, ou, quando chegam, são precários, o número de linhas de ônibus são reduzidas e o deslocamento até o centro apresenta um custo extra.

“A urbanização em si é violenta”, afirma Teixeira, embasado por outras autoras como a geógrafa Renata Silveira e a professora Fabiana Valdoski, do Departamento de Geografia da FFLCH da USP. Segundo o pesquisador, a população mais pobre é a mais vulnerável à violência. O isolamento, a precariedade nos serviços públicos e a remoção de centenas de famílias de suas casas são apenas algumas facetas da violência provocada pela urbanização.

As ocupações, assim como outras manifestações, são uma forma clara de resistência, para Teixeira. O pesquisador comenta que, após 13 anos de ocupação, vivendo em condições precárias, as 23 famílias conseguiram outro lugar para a realocação, próximo à área de remoção. Para além, a Favela do Banhado, localizada na região central de São José dos Campos, segue resistindo ao processo de desfavelização.

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