Problemas na microbiota são gerados do parto à alimentação

Especialista aponta fatores que podem levar à disbiose e ocasionar até doenças mentais

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O intestino é um imenso filtro capaz de favorecer ou impedir a entrada de determinados nutrientes e, até mesmo, de substâncias que podem ou não ser prejudiciais à nossa saúde. Se a parede do intestino está em bom estado, os nutrientes são bem absorvidos e as toxinas presentes nas fezes não conseguem penetrar na corrente sanguínea. O contrário acontece quando suas paredes estão prejudicadas e a flora bacteriana está em desequilíbrio, gerando ou facilitando o aparecimento de doenças. A microbiota intestinal é parte do complexo sistema que envolve células e tecidos, e um desequilíbrio nesse ecossistema — conhecido como disbiose — pode significar o aparecimento de inúmeras enfermidades, de um simples resfriado a doenças autoimunes e câncer, porque também está intimamente relacionado com a imunidade.

O Jornal da USP no Ar conversou sobre a disbiose com o doutor Ricardo Barbuti, do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Ele ressalta o porquê da atenção médica se voltar ao tema: “Nos últimos dez anos  esse assunto virou de interesse dos médicos e profissões relacionadas com isso. O número de pesquisas sobre o tema teve um aumento exponencial.  A microbiota no nosso intestino começa a ser criada dentro do útero da nossas mães. Elas começam passar para a gente bactérias, vírus, que vão entrando no intestino”. Barbuti explica também a diferença entre o contato com esses microrganismos e os diferentes partos, justificando o incentivo aos partos normais, pois, nesse caso, a criança tem familiaridade com bactérias do útero. “No parto cesariana, vai entrar em contato com bactérias da pele da mãe e do próprio hospital onde é feito o parto”.

Arte sobre foto Wikimedia Commons

Como a microbiota se desenvolve completamente nos três primeiros anos de vida, tudo que permeia o crescimento saudável causa consequências para toda a vida. “Se essa criança não se amamentar, não nasce de parto normal e usa muito antibióticos, a microbiota, a partir daí, já fica desequilibrada. Isso pode levar a um risco de doenças tanto intestinais quanto extraintestinais”, completa Barbuti. Enquanto adulto, pode-se alterar a microbiota e causar problemas devido a uma série de costumes, por exemplo, o uso de antibióticos. Ele explica que é possível tratar com suplementação probiótica, transplante de fezes e, principalmente, através de dieta. “Qualquer modificação que você faça na sua dieta pode causar um desequilíbrio, seja para o bem ou para o mal”, afirma o especialista.

O especialista explica que o intestino tem um mecanismo próprio de funcionamento. “A gente tem scanners no nosso intestino, que são capazes de reconhecer toda e qualquer bactéria que nós temos. Uma vez que eles percebam que não existe um equilíbrio entre as bactérias boas e as ruins, a informação é repassada ao sistema nervoso central, que vai modular e filtrar a informação e mandar uma resposta, alterando todos os sistemas do organismo.” Barbuti ainda revela que, por conta disso, há problemas com células que coordenam o sistema imunológico, levando a resfriados. Em outros casos, levam a problemas com a saúde mental. “Indivíduos deprimidos têm bactérias diferentes no intestino do que indivíduos não deprimidos. Esquizofrênicos e autistas também. Existem probióticos estritamente formulados para tratar depressão e ansiedade, entre outros.”

Algumas formas de manter a microbiota saudável são, além da questão do parto e amamentação, usar remédios, como os antibióticos, com prescrição e controle, manter atividades físicas e uma dieta equilibrada. E, como bem explica Barbuti, ir ao médico ao menor sinal de mudança. “Sempre que tiver algo diferente na saúde, ao invés de se automedicar, procure um médico para que ele possa orientar de forma adequada.”

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