Principal receio com mudança no Censo 2020 é voltado à área científica

Para pesquisador do CEM, o Censo Demográfico é parâmetro fundamental para o desenvolvimento de pesquisas

jorusp

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reduziu o número de perguntas do Censo 2020. Entre as questões excluídas, estão perguntas sobre gastos com aluguel, renda e posses de bens. No entanto, os cortes nos questionários básico e da amostra representam motivo de preocupação para a classe científica, que se baseia nessa pesquisa importante para realizar seus projetos. O Jornal da USP no Ar conversou com o professor Rogério Barbosa, mestre e doutor em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, a respeito dessas alterações.

A diminuição do Censo tem entre os argumentos para a mudança a diminuição do tempo estimado para respondê-lo. No entanto, o professor afirma que “a fixação em reduzir demais o tamanho do Censo é um pouco preocupante, porque não estão demonstrados quais são os ganhos marginais na qualidade das respostas com a redução de uma pesquisa que já é curta, considerando outras. Ele demorava cerca de sete minutos a vinte minutos para ser respondido, enquanto existem outras pesquisas que duram quase uma hora. O argumento do tempo não procede nesse sentido, sem um teste prévio para checar as vantagens disso”.

Além disso, outro fator utilizado como justificativa para as alterações é a necessidade de realizar cortes orçamentários, ao que Barbosa replica, explicando que a economia é muito pequena, por volta de 2% apenas. “A grande questão é avaliar qual é o impacto orçamentário real do Censo no montante do orçamento brasileiro. É preciso pensar nele como um investimento, ou seja, eventuais custos retornam na forma de crescimento econômico e melhoras públicas mais focalizadas”, conta o especialista.

Foto: Agência IBGE

O principal receio do CEM é voltado à área científica: o Censo é utilizado como parâmetro fundamental para o desenvolvimento de pesquisas, usando microdados, ou seja, as informações coletadas sobre os indivíduos, já com o devido sigilo aplicado. A falta desse conhecimento impacta diretamente o planejamento do País.

A supressão da pergunta sobre o aluguel, por exemplo, impede que dados sobre déficit habitacional – quando as famílias gastam mais de 30% de sua renda com arrendamentos – possam ser coletados e direcionados mais efetivamente. Barbosa explica que “se essa informação não é coletada no nível mais detalhado do Censo, significa que não sabemos mais identificar onde as pessoas estão morando. Não basta obter apenas uma grande estatística, sabendo quantos milhões de pessoas estão nessa situação. É necessário saber onde essas pessoas estão para dirigir empreendimentos imobiliários, públicos e privados, que vão sanar esse problema. A falta dessas informações prejudica muito a instauração de políticas públicas e, principalmente, a identificação da área de atuação”.

Entretanto, o pesquisador defende que o Censo precisaria passar, sim, por uma modernização. “O argumento de que mudanças não são necessárias por mero apego à série histórica não é válido. As alterações são necessárias para se adequar às mudanças da sociedade, já que alguns temas se tornaram mais importantes do que antes, como aqueles sobre acesso à Internet e sobre a questão racial. Não podemos deixar de abarcar esses temas”, defende o pesquisador.


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