Prevenção ao suicídio passa por assumir a existência de um transtorno mental

Para Alan Campos, por existir um estigma envolvendo o tema da morte, o ser humano prefere não tratar do assunto, o que dificulta a ajuda de um profissional

Neste mês, no dia 10, ocorreu o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Apesar de setembro ser o mês nacionalmente conhecido pelo Setembro Amarelo, a campanha em torno da prevenção ocorre durante todo o ano. Os números no Brasil são altos e, de acordo com o site www.setembroamarelo.com, mais de 12 mil suicídios ocorrem todos os anos, com quase 97% sendo relacionados a transtornos mentais e acontecendo principalmente entre os jovens. Ao redor do mundo, o valor se aproxima de 800 mil mortes, apesar de sua quantificação exata ser complexa.

Mas o que de fato significa o suicídio? “Suicídio é definido como retirar a própria vida com a intenção de fazê-lo. Isso é interessante para a gente fazer contraste com algumas situações em que a intenção, às vezes, não fica tão clara”, comenta o médico psiquiatra Alan Campos,  pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, ele explica que essas outras situações podem incluir autolesão, overdoses, entre outros, ou seja, o suicídio é caracterizado por sua intencionalidade.

Por ser um assunto complexo, pessoas que já têm pensamentos relacionados ao suicídio não expõem essa situação facilmente, o que dificulta uma ajuda profissional. De acordo com o médico, o estigma em torno do assunto é um dos motivos para essa dificuldade, pois o ser humano prefere fazer de conta que tal tema não existe. A campanha intitulada Setembro Amarelo, que ocorre desde 2015, se insere justamente no meio desse impasse, dando abertura para falar e tratar do assunto.

Campos dá exemplos de como o acesso a meios letais impacta na diferença de gêneros em torno da questão de tentativas de suicídio e da efetividade de tal medida extrema. Enquanto mais mulheres tentam se suicidar, são os homens que têm a maior taxa de sucesso no ato e o médico relaciona esses dados com a questão do acesso a armas de fogo ou a armas brancas, situações de acesso a lugares elevados, entre outros.

Pensamentos suicidas podem ocorrer em qualquer faixa etária, mas o dado mais preocupante é com relação aos jovens de 18 a 30 anos, já que o suicídio é a segunda maior causa de mortes, perdendo apenas para causas externas (acidentes e violência).

“A gente sabe que, a nível individual, têm condições sociais e de saúde particulares que aumentam ou diminuem o risco de um suicídio. Sabemos que o fato de ter uma rede de apoio social, de estar inserido em uma sociedade, de ter uma rede de familiares próximos, de ter emprego, uma boa situação financeira, ter uma ligação transcendental, ter pessoas que precisam de você são fatores que, apesar de ter a ideia, a pessoa não executa. Em contrapartida, a ausência destes passa a ser um fator de risco”, comenta Alan Campos, ao tentar relacionar fatores que podem prevenir o ato efetivo do suicídio e também suas contrapartidas, que, inclusive, podem envolver transtornos mentais e uso de drogas.

As políticas públicas de prevenção giram em torno de quatro fatores: a diminuição do acesso a meios letais, a forma como o assunto é tratado na mídia (com qualidade informativa, a pessoa sabe em que local procurar ajuda), tratar o transtorno mental na profilaxia (procurar ajuda mesmo antes de aparecer algum pensamento de morte) e tentar melhorar a condição econômica da sociedade (locais com maior desigualdade têm taxas maiores de suicídio).

Saiba mais ouvindo a entrevista completa no player acima.


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