Preconceito pode afastar pessoas com problemas emocionais da ajuda profissional

Medo de serem discriminadas ou não compreendidas, condição a que se dá o nome de psicofobia, pode levar pessoas com transtornos psicológicos e doenças mentais a não buscarem tratamento

Foto: via Pixabay – CC

O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e o mais depressivo da América Latina. No planeta, o cenário da saúde mental também não é muito diferente, pois, em média, 700 milhões de pessoas sofrem com algum tipo de transtorno psicológico, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o aumento dos enfermos, as questões emocionais têm ganhado espaço na sociedade, mas o estigma e o preconceito ainda persistem. 

Esse tipo de preconceito recebeu o nome de psicofobia. Segundo a professora Carmem Beatriz Neufeld, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, trata-se da discriminação expressa por comentários como “depressão é falta de Deus”, “síndrome do pânico é frescura” e “você está exagerando”. A professora afirma que  “muitas vezes as pessoas têm vergonha de dizer que vão a tratamento porque sabem ou acham que as outras pessoas não compreenderão o que estão passando”. 

Foi assim com o estudante de jornalismo Enrico Ziotti, que, aos 17 anos, teve a primeira crise de pânico dentro da sala de aula do cursinho pré-vestibular. Ziotti conta que, até então, não sabia o que estava acontecendo e pensou apenas estar cansado. As crises o fizeram dar um tempo nos estudos, mas, ao contrário do que acreditava, além de não passarem, fizeram com que abandonasse as aulas e se trancasse em casa.   

Carmem Beatriz Neufeld – Foto: Arquivo pessoal

Os pais de Ziotti perceberam que o filho estava diferente, mas a primeira reação ao saberem os motivos por trás da mudança não ajudou o estudante a entender o que estava acontecendo. “Eu contei para eles o que estava sentindo e o meu pai falou que isso pode acontecer por conta de mudanças da vida. Falei que precisava voltar ao meu psicólogo e consultar um psiquiatra, mas ele respondeu que era só eu ficar calmo e toda noite, antes de dormir, rezar para Deus melhorar as coisas.” 

A falta de compreensão dos pais afastou o estudante da ajuda profissional. Sem o apoio, ele diz que se sentiu ainda mais perdido, pois as crises de pânico eram sensações “únicas e perturbadoras”. Toda aquela situação foi novidade para Ziotti, que, sem ajuda necessária, viu as crises se tornarem mais frequentes e piores. “Eu me senti de mãos vazias”, conta. 

Mas o diálogo fez a diferença nessa história e, para o estudante, foi crucial para conseguir superar seus conflitos. Diz que, depois de um tempo, o pai entendeu que ele precisava de ajuda e o levou a psicólogos e psiquiatras. Por isso, Ziotti diz acreditar no poder da conversa, já que através dela é possível ficar sabendo a quem recorrer. “Porque não é meu pai e minha mãe que vão saber o que fazer, mas eles precisam saber me orientar e me levar a alguma pessoa que possa me ajudar. O diálogo ajudou a abrir portas que eu nem sabia que existiam”, afirma. 

A professora Carmem concorda que “falar sobre transtornos e doenças mentais é o primeiro passo para compreender nossas dores e as dos outros”. O desafio de psicólogos e psiquiatras, diz, é  “trazer informação para a população, para que saibam cada vez mais que dificuldades e mesmo transtornos mentais fazem parte da nossa vida e da nossa sociedade. São manifestações típicas do ser humano, que não falam sobre fraqueza ou força ou sobre o quanto essa pessoa é digna ou não da nossa confiança e do nosso suporte”.  

Para o combate ao preconceito, a Associação Brasileira de Psiquiatria promove, todo ano, no dia 12 de abril, o Dia Nacional do Enfrentamento à Psicofobia. Carmem conta que a iniciativa é uma “tentativa de ajudar as pessoas a terem uma visão mais normalizadora das sintomatologias psicológicas”, além de diminuir a discriminação. 

Ouça no player acima a entrevista do estudante Enrico Ziotti e da professora Carmem Beatriz Neufeld ao Jornal da USP no Ar Edição Regional

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