Práticas religiosas durante pandemia experimentam ambiente virtual

Renan William dos Santos comenta que as práticas religiosas sofreram adaptações, o que levou a uma perda da integração, da dimensão comunitária e dos ritos

A pandemia da covid-19 afetou todo tipo de produção e celebração sociocultural, entre elas, as práticas religiosas. Por isso, religiões e denominações religiosas precisaram se adaptar ao isolamento social a fim de continuarem, de alguma forma, com a celebração de suas cerimônias.

Renan William dos Santos, doutorando em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica que esse é um quadro problemático, já que ocorre perda da integração e da dimensão comunitária, as quais são partes constitutivas da prática religiosa. “Esse ideal de comunidade é a parte mais afetada pelo afastamento social”, afirma. 

As adaptações para o atual contexto, feitas principalmente por meios digitais, constituem outra dificuldade, já que as práticas devem ser realizadas de acordo com regras já determinadas. O principal questionamento envolve a questão dos rituais, necessariamente estereotipados. “Se não seguir à risca, o ritual terá efeito?”, questiona Santos. “O discurso do sagrado não casa muito bem com exceções.” 

Esse quadro, em que o ambiente virtual passa a ser essencial para algumas práticas, pode levar a mudanças estruturais em certos ritos. “Se lideranças religiosas adaptam rituais e dizem que podem ser feitos de uma forma durante a pandemia, então por que não manter essa adaptação após o isolamento?” 

Em relação à oposição entre religião e ciência, a situação em que as religiões se encontram no momento revelam o status do sagrado nas sociedades modernas: as próprias instituições suspendem ou realizam adaptações a fim de não contrariar orientações seculares do governo e da ciência. Mesmo denominações mais deterministas, segundo as quais “nada acontece fora dos já traçados planos divinos, inclusive o fato de se contrair ou não uma doença”, como avalia Santos, não se rebelaram contra orientações governamentais. 

Isso não quer dizer que não tenha havido negacionismo por parte de religiosos, como explica Santos. “Há um negacionismo, mas não é religiosamente fundamentado. As pessoas não estão dizendo ‘a ameaça é grande, mas minha fé é maior’, por exemplo. A contestação é em relação à ciência, aos perigos da doença.” Segundo ele, é um quadro sem precedentes na história. 

O pesquisador ainda comenta que a relação religiosa mediada pelo ambiente digital oferece uma série de experimentações. Isso constitui uma característica da modernidade ocidental, de ter a relação religiosa como uma relação de consumo, quadro que, segundo ele, é intensificado pela pandemia. 

O uso dos meios digitais pelas instituições ainda permite que pessoas tenham contato com teologias alternativas às suas próprias, por exemplo. Segundo Santos, esse contexto matiza essa nova experiência.“Por mais que isso incomode teólogos, as mudanças impostas pela pandemia reforçam a máxima de que ‘o freguês sempre tem razão’, inclusive quando se trata de religiões”, completa.

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