Políticas públicas, aliadas à ciência, são vitais nos momentos de crise

Marcos Buckeridge aponta a importante relação entre ciência e políticas públicas nas cidades e o que sua falta pode resultar para o bem-estar social

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A configuração do modo de vida nas grandes cidades foi um fator determinante para o espalhamento do vírus que provoca a covid-19. Transporte público, shoppings, cinemas, shows musicais, teatro, estádios esportivos, filas de lotéricas e bancos. Todos esses são exemplos de lugares com aglomeração que contribuem para a disseminação do novo coronavírus. Hoje, estudos já relacionam a importância da ciência e das políticas públicas nos centros urbanos, a fim de evitar problemas repentinos ou crônicos.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o professor Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências (IB) da USP, comenta artigo que sairá na edição número 99 da revista Estudos Avançados. Nomeado como Ciência e políticas públicas nas cidades: Revelações da pandemia da covid-19, ele e o professor Arlindo Philippi Júnior (FSP-USP) propõem uma teoria da cidade como se fosse um ecossistema com dois subsistemas: primário (materiais com gasto de energia, água e produção de resíduos) e secundário (redes de segurança, educação, saneamento básico, saúde, meio ambiente, entre outros).

“Se essas redes não estiverem funcionando bem no subsistema secundário, quando [afetados por] um evento extremo como a pandemia da covid-19 ou mesmo as mudanças climáticas e seus impactos, as pessoas envolvidas nisso e que sofrem são as mais pobres”, explica Buckeridge. O coordenador do Programa USP Cidades Globais do IEA-USP defende que política pública é como se fosse um triângulo. Um dos vértices é representado pela população que apresenta problemas, outro pelos cientistas que propõem soluções para essas problemáticas e no outro vértice está a política dos gestores públicos. Para o professor, quando a política é bem-feita, o gestor captura onde existem problemas cujas soluções já foram pensadas por modelos científicos.

outro artigo elaborado, dessa vez em conjunto com Vinícius Carvalho Jardim (doutorando do IME-USP), em que os pesquisadores mostram que uma política pública não pode ser feita de forma unitária e sim sistêmica. No Brasil, isso ficou evidente com o tratamento isolado para a questão do combate ao novo coronavírus pela saúde e a retomada da economia por diversos setores. “Existem falhas do passado que não conseguimos mexer agora. Apontamos no artigo que uma cidade paga o preço por falhas do passado. O grande problema [brasileiro] é a desigualdade social”, aponta Marcos Buckeridge.

O Brasil se encaminha para ser o país com o maior número de casos da covid-19 no mundo, não só por sua extensão territorial e grande população. A cidade de São Paulo, por exemplo, possui número de mortes elevado nas regiões que possuem pior estrutura de padrões urbanos (saneamento, transporte público, habitação, etc.) e não há como mudar a realidade de quem mora em uma casa com 15 pessoas em quatro meses. “A desigualdade não penaliza apenas as pessoas mais pobres, ela penaliza todo mundo. Não é uma questão de ajudar os pobres, é ajudar a sociedade como um todo. Essa é a grande falha do Brasil: de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife.”

“Todas cidades do mundo têm desigualdades, mas temos uma desigualdade muito mais alta aqui no Brasil”, destaca Buckeridge. Mesmo que a própria maquiagem da desigualdade de outros países tenha sido desfeita pela pandemia, como é evidente com o caso de Nova York, na cidade americana aconteceu o mesmo que no Brasil. Para finalizar, o professor comenta uma última pesquisa que ele fez com dados de 56 países sobre a porcentagem das pessoas infectadas. O estudo será publicado na revista Ambiente e Sociedade e você pode acessá-lo clicando aqui (está em inglês).

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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