Pluralidade nos quadrinhos evidencia cautela em adaptações e marketing de editoras

Waldomiro Vergueiro analisa cenário de adaptação às demandas de diversidade nas Histórias em Quadrinhos como manobra estratégica e cautelosa das editoras

 Publicado: 10/11/2021
Por
Filho de Clark Kent, Jon Kent, adota um comportamento bissexual, o que mostra que as HQs estão se adaptando aos novos tempos – Foto: Reprodução/Divulgação

As adaptações de personagens à realidade plural da sociedade atual já é realidade na televisão, nos cinemas, nos videogames, entre outros. O recente anúncio da Dc Comics de que na nova edição de Superman: Son of Kal-El (Super-homem: Filho de Kal-el), o filho de Clark Kent, Jon Kent, será bissexual é um exemplo. Mas essa diversidade nas histórias em quadrinhos (HQs) é espontânea por parte das editoras ou estratégia para o consumo do gênero pelo público? 

Waldomiro Vergueiro, professor e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos na Escola de Comunicações e Artes da USP, explica que ,apesar de acompanhar a realidade plural da sociedade, as grandes editoras responsáveis pelas HQs não modificam seus personagens tradicionais, como Clark Kent, mas sim personagens periféricos, como Jon. “A gente dizer que as editoras estão modificando os personagens tradicionais me parece generalização”, avalia Vergueiro, ao destacar a resistência das grandes editoras a mudanças em personagens tradicionais. “As empresas mostram que estão se adaptando aos novos tempos, modificando personagens próximos aos tradicionais”, destaca. 

Para Vergueiro, a estratégia adotada é louvável por atender às demandas de diversidade nos quadrinhos e que as HQs, enquanto produto de massa, devem remeter ao dia a dia do seu público, caso contrário serão hostilizadas e rejeitadas por ele. “Essas modificações devem ser vistas dentro de um esforço de adaptação e de marketing dessas empresas”, explica o professor.

“Quem vai no cinema assistir ao Super-Homem é o leitor tradicional, que ainda pensa no herói como gavião da realidade norte-americana e defensor do American Way Of Life – Foto: Reprodução/Divulgação

 

Ele também comenta sobre a dependência das editoras dos seus leitores tradicionais. “Quem vai no cinema assistir ao Super-Homem é o leitor tradicional, que ainda pensa no herói como gavião da realidade norte-americana e defensor do American Way Of Life”, analisa Vergueiro, ao lembrar que boa parte da resistência da modificação de personagens está relacionada ao conservadorismo do público norte-americano, ao qual se destina primordialmente as histórias em quadrinhos de super-heróis. “Então, os leitores mais antigos têm um pouco de resistência a modificações porque se acostumam com um tipo de comportamento do herói”, complementa. 

“Afinal, uma história em quadrinho é feita para o seu tempo e momento histórico, refletindo a realidade, mas ela não fará uma mudança tão drástica a ponto de ser suicida”, comenta. 

É a partir das Histórias em Quadrinhos que outros espaços de mídia passam a se desenvolver, como a televisão, cinema e videogame, e que por isso precisam estar alinhadas à realidade plural na qual estamos inseridos atualmente. “Elas não podem simplesmente continuar publicando os mesmos personagens no mesmo formato, até porque as relações pessoais, políticas e ideológicas se modificam”, explica Vergueiro. 

O professor também lembra do novo filme da Marvel, Eternos, que em seu escopo busca representar um herói homoafetivo e um grupo de heróis plural e diverso, mas que ainda assim não compõem a linha de frente como os principais heróis do universo ocupam. “As empresas utilizam essas estratégias como elemento de vendas”, conclui Vergueiro.


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e o Instituto de Estudos Avançados. No ar, pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 10h45, 14h, 15h e às 16h45. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.