PIB do agronegócio deve ter resultado satisfatório, apesar da crise

Nicole Rennó avalia que o setor pode ser favorecido com a alta do dólar e exportações, diferente de produções mais dependentes da demanda interna

Como diversos setores da economia global, o agronegócio brasileiro deve sofrer algum impacto com os efeitos da pandemia do coronavírus. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, avaliou os principais impactos da pandemia sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio e o mercado do setor. O Jornal da USP no Ar conversou com a pesquisadora do Cepea, Nicole Rennó, que explica quais setores são mais dependentes da demanda interna de consumo brasileira e em que níveis eles serão atingidos.

“Em situações normais, os mercados agropecuários já são muito incertos e voláteis. Neste cenário sem precedentes, a incerteza se elevou em um grau altíssimo”, revela Nicole. A pesquisadora reforça que todas as perspectivas, analisadas pelo Cepea, são baseadas em informações de momento, que podem mudar rapidamente. “[Por isso] é preciso haver um acompanhamento diário dessa situação.”

É importante lembrar que agregados econômicos, como demanda interna e mundial e a taxa de câmbio, afetam de forma diferente cada setor do agronegócio. A conclusão a que os pesquisadores do Cepea chegaram é que aqueles que dependem das exportações estão sendo favorecidos pelo atual patamar do câmbio (preço do dólar comercial). Já os setores que abastecem a demanda doméstica provavelmente sofrerão, sendo que os produtos não essenciais de alimentação vão ser mais afetados.

O Cepea mapeou quais deles podem ser vulneráveis neste momento: hortifrutis (muito perecíveis por enfrentarem desafios na logística); setor de floricultura e biocombustíveis; a agroindústria, que depende do algodão (como têxtil e vestuário); e o setor de leite e derivados. Ao contrário desses setores, estão com boas perspectivas os produtores de grãos, carnes e café, além de móveis de madeira e papel celulose, que estão aproveitando o patamar do dólar alto e as exportações também em leve alta. Todos esses produtos possuem enorme peso no PIB brasileiro e os estudos do Cepea indicam que o dólar elevado acaba tendo um efeito mais positivo que negativo.

Hoje, o impacto no mercado de trabalho não é direto e independente dos setores agrícolas que geram o PIB: soja, milho, café e algodão. “Cerca de 60% dos empregos estão pulverizados em várias culturas menores em termos de valor e produção, mas importantes em pessoas ocupadas”, explica Nicole Rennó. Outros importantes empregadores são a indústria têxtil, de vestuário e calçados, que possuem mais peso nos empregos. “É uma indústria que está vulnerável nesta crise, porque tem produtos de valor agregado, não é essencial e depende do mercado interno.”

De acordo com a pesquisadora, mesmo com projeções negativas para o PIB brasileiro em 2020, feitas pelo Banco Central e Fundo Monetário Internacional (FMI), é esperado um resultado satisfatório para o PIB do agronegócio. “A produção agropecuária vai bem, principalmente para as grandes culturas. Não esperamos uma grande mudança de demanda e os produtos essenciais vão continuar sendo consumidos.” Segundo Nicole, a questão empregatícia vai depender desse período de isolamento mais intenso, considerando também que, após isso, a retomada da economia não deve ser tão rápida. Ela afirma que, por enquanto, não foi relatado problema de desabastecimento de produtos. “Em relação aos preços, tivemos um efeito de aumento em março, com insegurança do consumidor que teve excesso de compras. Mas as perspectivas para médio prazo é de que os preços fiquem em patamares mais baixos.”

Ouça a entrevista completa no player acima.


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