“País tem jogado fora legado que levou décadas para ser construído”

A afirmação é de Paulo Casella ao se referir ao discurso de Jair Bolsonaro sobre meio ambiente, em seu pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas

Pressionado por organizações internacionais, em relação às queimadas recordes na Amazônia e no Pantanal, o presidente Jair Bolsonaro discursou hoje (22) na abertura dos debates da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Para analisar e comentar os possíveis impactos desse discurso, o Jornal da USP no Ar recebeu Paulo Borba Casella, professor titular do Departamento de Direito Internacional e Comparado da Faculdade de Direito (FD) da USP e coordenador-geral do Grupo de Estudo sobre o Brics (Gebrics/USP) .

Casella explica que, desde a criação da ONU, foi dada ao Brasil a deferência de fazer o primeiro discurso na abertura da Assembleia Geral, realizada na terceira semana de setembro, a cada ano. “Esse espaço vem sendo usado desde então”, afirma, “porém, neste ano, o fato de o discurso do presidente brasileiro, se colocando na posição de defesa, dar explicações à comunidade internacional mostra problemas na governança do País”. 

O Brasil tem uma tradição de política externa pautada em três grandes eixos: alinhamento pelo direito internacional e pela solução pacífica de controvérsias; credibilidade na proteção dos direitos humanos, consolidada após o fim da ditadura militar; e a proteção internacional do meio ambiente e o desenvolvimento dessa matéria. Justamente por isso, segundo o professor, o Brasil precisaria ter um posicionamento sensato, de maneira a considerar esse histórico. “O País tem jogado fora, em relação a esses três campos, um legado que levou décadas para ser construído e que levará décadas para ser resgatado. Não ganhamos outras frente sacrificando essas. Estamos jogando fora um ativo intangível.”

Esse quadro se torna ainda mais preocupante por não se tratar de um trabalho de “oposição da mídia internacional globalista dominada pela esquerda”. “São dados de instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que possui respeitabilidade internacional consolidada”, afirma Casella, segundo o qual essas informações mostram o tamanho do estrago e do descontrole público e administrativo. 

Há ainda o discurso nacionalista xenófobo em relação à Amazônia, ao Pantanal e ao meio ambiente. “É estúpido e já nos custa perda de credibilidade, de mercado e, em um futuro próximo, pode nos custar ainda mais caro.” O professor finaliza comentando ainda sobre a condução da pandemia do coronavírus pelo governo. “Nós temos a negação da gravidade dessa pandemia por parte de governantes. É uma conduta irresponsável, que só fez aumentar o número de casos e mortes”, completa.

Ouça a íntegra da entrevista no player.


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