Notre-Dame recebe doações bilionárias. Será reconstruída ou renovada?

A comparação com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que luta para conseguir recursos, levanta críticas

 

 

O incêndio da Catedral de Notre-Dame, que, um dia depois, já tinha recebido cerca de R$ 3 bilhões de empresários e bilionários, inclusive uma brasileira, suscitou as críticas nas redes sociais com o descaso da iniciativa privada, da elite e do governo com o patrimônio histórico do Brasil. As críticas apontaram a destruição do Museu Nacional do Rio de Janeiro, o mais antigo do País, destruído pelo incêndio avassalador em setembro do ano passado. O assunto é repercutido por Giselle Beiguelman, artista e professora da FAU USP,  na coluna Ouvir Imagens (clique o player acima).

“Esse gesto, louvável, diga-se, mostra que, de certa forma, no exterior, as elites se sentem obrigadas a retribuir à arte e à cultura a posição socioeconômica que alcançaram”,  comenta a professora. “Isso é algo que não encontra paralelo por aqui. Mas não devemos esquecer que uma lei francesa permite que 60% desse valor captado seja abatido do imposto de renda do doador.”

Esse benefício, segundo a professora, é fundamental.  “As doações à catedral nos fazem atentar para a importância de leis como a Rouanet, um dos alvos dos ataques que vêm sendo feitos à produção artística e cultural no Brasil.”

Giselle Beiguelman observa que, junto com a captação dos recursos, uma polêmica se abriu. “A dúvida dos especialistas é se a catedral deve ser reconstruída ou renovada? Essa polêmica tem raízes mais antigas, pois outros  marcos arquitetônicos já passaram por esse processo.”

A discussão, segundo a professora, é em torno da autenticidade. “Dentro de uma abordagem contemporânea do patrimônio histórico, leva-se em conta também aspectos imateriais, como a tradição, as formas de uso ou a função de um monumento ou bem tombado”, esclarece. “A reconstrução, em busca de uma autenticidade original, poderia significar, paradoxalmente, um apagamento das camadas do tempo, justificando projetos que funcionam mais como cartões postais que como testemunhos da cultura material e imaterial que carregam.”

Mais informações sobre o tema discutido acesse www.desvirtual.com. Ouça no link acima a íntegra da coluna Ouvir Imagens.

 

 

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