Narrativas sobre paradesporto encobrem potencialidades esportivas do atleta

Editadas para inspirar pessoas, muitas histórias de superação deixam transparecer preconceitos e estereótipos que ainda impedem a equidade social, afirma Cristiano Roque Antunes Barreira

 Publicado: 09/11/2021
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O evento paralímpico, transmitido em agosto deste ano, bateu recordes de audiência nos canais de televisão  Daniel Dias – Foto: Flickr

A discussão sobre os preconceitos estruturais e ocultos da sociedade vem ganhando espaço no debate público. E um bom exemplo ganhou maior visibilidade com as  Paraolimpíadas de Tóquio 2020 e a “dramatização da história de superação” desses atletas. Mas a limitação desse discurso às deficiências físicas faz perder de vista “a beleza do senso de justiça que o dispositivo esportivo procura colocar em prática”, alerta o professor Cristiano Roque Antunes Barreira, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP.

É que o evento paralímpico, transmitido em agosto deste ano, bateu recordes de audiência nos canais de televisão, alcançando cerca de 4,25 bilhões de espectadores, segundo estimativa do Comitê Paralímpico Internacional. Boa parte das emissoras contou histórias de vida dos atletas que foram compartilhadas nas redes sociais pelo público. A questão levantada pelo professor Barreira é que, mesmo construídas para inspirar outras pessoas, muitas dessas histórias deixam transparecer preconceitos e estereótipos.

Quando contada sob a perspectiva da deficiência, a história revela, “inadvertidamente, a percepção de uma pessoa minorizada”, diz o professor, argumentando que, nesse caso, não somente o ideal do paradesporto é desacreditado como as potencialidades que moveram o atleta. Barreira lembra que a superação é da natureza do esporte, mas um discurso “que faz do esporte uma bandeira ideológica” retira da superação o que tem de mais admirável, a “expressão das condições justas e das condições de equidade pelas quais nossa vida coletiva deveria lutar incessantemente”, enfatiza.

A  superação é da natureza do esporte, mas um discurso “que faz do esporte uma bandeira ideológica” retira da superação o que tem de mais admirável – Fvoto: Flickr

 

Segundo o professor, o esporte adaptado “faz bem o que a sociedade como um todo faz muito mal”, uma vez que coloca em prática um ideal em que o ambiente e suas normas são adaptados para que “a existência das pessoas não seja definida pelas limitações, mas pelas potencialidades”. As diferenças particulares do paradesporto, adianta Barreira, existem para igualá-lo ao desporto convencional “no que mais importa: a busca de condições de equivalência para a disputa”. 

As histórias de paratletas, insiste Barreira, em geral mostram uma pessoa que “superou emblematicamente todos os obstáculos sociais”, enquanto estes mesmos “obstáculos a uma vida digna” continuam vigentes. Para evitar esse prejuízo e avançar como civilização, a proposta do professor é falar em equidade sempre que se falar de superação. “Sem persistência em mirar mais alto, não há atleta vitorioso, mas atribuir sucesso à crença e motivação é fechar os olhos para uma série de condições de acessibilidade e desigualdade”, tanto para atletas quanto para cidadãos como um todo.


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