Não há mudança social mesmo com crescimento da classe C

Essa divisão em A, B, C, D e E tem mais a ver com extrato de renda do que com perfil sociológico, diz professor

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Foto: Pedro Bolle/USP Imagens

Uma década depois da criação do termo “nova classe média”, essa parcela da população no Brasil voltou a crescer de 2017 para 2018, passando de 50% a 51% da população, uma adição de mais de 2 milhões de pessoas, após uma queda brusca nos dois anos anteriores. Embora ainda não tenham recuperado tudo o que perderam durante o período em que a economia recuou 8%, as famílias da classe C estão otimistas com o que está por vir e pretendem voltar a comprar bens de maior valor agregado, como eletrodomésticos e materiais de construção, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. Mais alguns números: 45% estão na região Nordeste; 59% se dizem negros; 45% têm ensino fundamental, 36% têm ensino médio e houve um aumento de 9% para 12% no ensino superior.

No livro A Nova Classe Média, o economista Marcelo Neri, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos de 2013 a 2015, dividiu a população brasileira em classes segundo sua renda. A classe C (renda familiar mensal entre R$ 1.446,24 e R$ 4.427,35) seria a mediana, ponto médio entre a distribuição crescente da amostra e correspondente a 40% de seu total. O sociólogo Edison Bertoncelo, em entrevista ao Jornal da USP no Ar, afirma, todavia, que a classificação numa análise social é sem sentido. Essa faixa populacional seria muito abrangente, “engloba desde o engenheiro em início de carreira até um eletricista experiente, dois perfis muito distintos”, argumenta. 

Fora isso, o nível de consumo da nova classe média flutua muito junto à conjuntura econômica nacional. Por não se tratar de um grupo de profissionais liberais, com ensino superior e posições de prestígio — normalmente são mão de obra não qualificada —, tanto a oferta de emprego como suas remunerações dependem da demanda interna e externa, diz Bertoncelo. Porém, momentos de recuperação e crescimento da economia, até os sutis como o atual, facilitam o acesso à maior variedade de produtos por essas famílias.

“A ampliação dessa oportunidade de consumo, de qualquer maneira, desloca as ambições das classes A e B (em algumas análises uma só correspondente aos 10% mais ricos do País). Ao passo que núcleos familiares conquistam carros e viagens, a exemplo de uma viagem Londres-Paris-Roma, os mais abastados procuram lugares exóticos e patrimônios mais raros, esclarece o professor. Algo esperado devido à própria composição desses grupos.

A mudança social se daria por meio da transformação de diversos pilares estruturantes desses núcleos familiares, a renda seria só um deles, embora tenha interstícios com os outros. “Entender essa complexidade demanda mais informação”, diz o sociólogo. “Perspectivas de carreiras, ou composição do núcleo familiar, podem fazer mais diferença do que o salário que o sustenta”, finaliza.

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