Mudanças no Ensino Médio podem representar diluição na aprendizagem e no ensino

Ocimar Alavarse, avaliando o panorama da educação no Brasil, entende que essas mudanças podem resultar em implicações negativas para os estudantes que pretendem dar continuidade aos estudos na educação superior

 12/04/2022 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 12/05/2022 as 12:33

 

Os dados indicam uma defasagem na leitura e resolução de problemas matemáticos por parte dos alunos – Foto: Reprodução/Elias Ramos-PMC

Neste ano passa a valer o novo Ensino Médio, que acarretará mudanças no ensino público e privado em todo o País. O Ministério da Educação também anunciou a reestruturação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para que ele esteja alinhado às novas diretrizes. 

Essas mudanças são promovidas em um cenário de crises e dificuldades da educação brasileira intensificadas pela pandemia. Um levantamento da Secretaria de Educação de São Paulo, por exemplo, indica que o ensino médio, que já não vinha bem, teve queda acentuada entre 2019 e 2021.

Ocimar Munhoz Alavarse – Foto: Reprodução/Fapesp

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, Ocimar Alavarse, professor da Graduação e Pós-Graduação da Faculdade de Educação (FE) da USP e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional (Gepave), analisa o contexto em que essas mudanças são feitas.

Alavarse comenta que os dados indicam uma defasagem na leitura e resolução de problemas matemáticos por parte dos alunos. “Essas duas competências são muito importantes”, diz. “A capacidade de leitura interfere no aproveitamento de todas as disciplinas da escola, assim como na resolução de problemas, que, embora associada à matemática, diz respeito à lógica e ao raciocínio”, acrescenta. 

O professor destaca os esforços e iniciativas de escolas, professores e famílias para garantir a qualidade da educação durante a pandemia, mas afirma que isso não foi o bastante, o que evidencia as limitações do ensino remoto. Neste ano de 2022, em que os alunos estão voltando ao ensino presencial, a interação entre alunos e professores é essencial para o processo de aprendizagem. Entretanto, esse cenário pode acentuar as diferenças entre os alunos e, possivelmente, acentuar desigualdades. “Se nós queremos o sucesso de todos os estudantes da educação básica, uma atenção redobrada é necessária.”

Alavarse também destaca que os alunos que se formaram durante a pandemia são os mais prejudicados, pois perderam o vínculo com as instituições de ensino básico. Por outro lado, os estudantes que têm mais tempo até se formar podem, de alguma forma, mitigar alguns danos.

Novo Ensino Médio

O professor faz ressalvas às mudanças adotadas diante desse contexto. “É uma proposta, do meu ponto de vista, muito vaga, que vai falar de itinerários formativos com muitas possibilidades. O risco é que essas muitas possibilidades acabem significando uma diluição no processo de aprendizagem e ensino.”

Entre as novas diretrizes estão o aumento da carga horária e uma grade curricular baseada em áreas de conhecimento. Essas mudanças podem resultar em implicações negativas para os estudantes que pretendem dar continuidade aos estudos na educação superior. “Nessas condições, com essas características do chamado novo ensino médio, as dificuldades podem ser ainda maiores, lembrando que nós estamos falando de processos que muitas vezes envolvem a disputa por vagas”, conclui.


Jornal da USP no Ar 
Jornal da USP no Ar é uma parceria da Rádio USP com a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina e o Instituto de Estudos Avançados. No ar, pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 10h45, 14h, 15h e às 16h45. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular. 


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.