Mudanças climáticas encarecem tarifas de energia em agosto

Clima seco pode dificultar reabastecimento de reservatórios e tornar a produção de energia elétrica mais cara

jorusp

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) divulgou que a bandeira tarifária será vermelha em agosto. Este mês é tipicamente seco, e essas condições climáticas afetam as principais bacias hidrográficas. A previsão hidrológica sinaliza vazões abaixo da média histórica e tendência de redução dos níveis dos principais reservatórios, o que contribui com a crescente preocupação com o nível dos reservatórios utilizados para o fornecimento de água para a Região Metropolitana de São Paulo. Pedro Luiz Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente e do Projeto Temático FAPESP Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista, contou ao Jornal da USP no Ar qual o prognóstico climático para os próximos meses.

O especialista diz que um fator que pode potencializar esse cenário é o enfraquecimento do fenômeno El Niño na região. “Nós tivemos um verão e outono sob essas condições e, em São Paulo, o El Niño acabou trazendo mais chuva e calor para a Região Metropolitana (o que inclusive foi uma das razões do aumento dos casos de dengue este ano). No entanto, atualmente há uma tendência de enfraquecimento do El Niño, e uma possibilidade em torno de 60% de que no final do inverno nós estejamos sob o efeito da chamada fase neutra, que tem representado, historicamente, o pior cenário para a recarga do Sistema Cantareira. É importante lembrar que a crise hídrica ocorreu, em grande parte, sob a influência dessa fase”, explica. Essa etapa é caracterizada pela ausência de condições que possam dar origem ao El Niño, ou o fenômeno oposto, chamado de La Niña, o que colabora ainda mais com o clima seco.

O Cantareira é o principal sistema de abastecimento de água para áreas paulistas. Embora o nível do reservatório seja considerado razoável para esta época do ano (53,9 %), as perspectivas para o segundo semestre não são muito otimistas em relação a sua recarga, o que pode aumentar o preço das contas de energia. “Com a perspectiva de redução no volume de chuvas, conforme prognóstico da ANEEL, aumenta o chamado ‘Risco Hidrológico’. Isso significa que reservatórios utilizados para a geração de energia elétrica talvez não tenham volume suficiente de água para cumprir essa função. A partir disso, são utilizadas em maior intensidade as usinas termoelétricas para suprir a demanda. O problema é que esse tipo de geração de energia têm um custo operacional maior, levando a um aumento da tarifa e contribuindo com a atribuição da bandeira vermelha”, diz Côrtes.

Os impactos econômicos afetam praticamente todos os tipos de consumidores, desde o individual até as grandes empresas. O professor esclarece que “a bandeira vermelha é uma tarifa aplicada diretamente ao consumidor doméstico, mas que também afeta os prestadores de serviço. As indústrias já tem geralmente uma negociação mais direta com os fornecedores, mas obviamente elas também pagarão mais caro, porque as usinas termoelétricas têm um custo de produção maior que as hidroelétricas. Isso não é bom para nossa economia no momento, até porque isso não é atrativo para investidores, por conta dos custos elevadíssimos”.

O uso de termoelétricas impactam não só a economia, mas também o meio ambiente, pois provocam o aumento da poluição do ar e da emissão de gases estufa. Por todas essas razões, é preciso “economizar água, para manter os mananciais em níveis adequados, e também energia elétrica  não somente pela tarifa mais elevada  mas também para manter os reservatórios com níveis minimamente adequados. Precisamos evitar que a bandeira vermelha migre para o Patamar 2 como chegou a acontecer em 2017 com a elevação ainda maior da tarifa de energia elétrica”, conclui Côrtes.


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