Mesmo com mudanças, sanções internacionais não devem cair na Venezuela

Especialista da USP indica que os bloqueios são as principais moedas de troca de agentes internacionais para negociar a flexibilização do regime de Nicolás Maduro

 29/07/2021 - Publicado há 6 meses
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“A administração de Joe Biden (presidente dos Estados Unidos) não vai flexibilizar ou não vai acabar tão facilmente, porque as sanções são a moeda de troca mais forte que têm a administração americana e a Europa para negociar medidas políticas de mudanças mais profundas na Venezuela” Foto: UNHCR/Boris Heger/Nações Unidas via Agência Brasil

 

Os Estados Unidos, Canadá e União Europeia (UE) revelaram em comunicado estarem dispostos a rever as sanções econômicas à Venezuela. O país sul-americano, governado por Nicolás Maduro, enfrenta grave crise social e econômica, agravada pela pandemia, e vai passar por eleições regionais ao final de 2021. A expectativa é de que um nível de diálogo interno e externo maior possa beneficiar a flexibilização sobre o regime de Maduro.

A Venezuela está sob o governo de Nicolás Maduro desde 2013. As últimas eleições foram em 2018 e a comunidade internacional já apontava fortes indícios de fraudes. A crise que vive o país se dá não somente pelo impacto imediato da pandemia como também pelos bloqueios econômicos que o país sofre há um tempo, que também atingem o decisivo setor petroleiro. Inclui-se aí um bloqueio por Washington do petróleo venezuelano, como parte de uma pressão para a “restauração” da democracia no país sul-americano.

 

Economia venezuelana

“Por causa do petróleo, os Estados Unidos são um país que historicamente, desde o século 20, têm muito interesse de ordem econômica na Venezuela, que é o principal exportador ocidental de petróleo para os Estados Unidos”, aponta o professor Rafael Antonio Duarte Villa, do Instituto de Relações Internacionais da USP. Quanto à União Europeia, além de se beneficiar da exportação de petróleo venezuelano, “a Europa tem tradicionalmente muitos interesses na Venezuela. Há uma comunidade de europeus que migrou para a Venezuela bastante forte. As principais lideranças exiladas da oposição estão na Europa, em países como a Espanha”, afirma o professor.

Por conta desses interesses econômicos e também pela influência geopolítica da Venezuela, é possível explicar o interesse de atores como os Estados Unidos em uma flexibilização. “O interesse profundo dos Estados Unidos é que com a volta de um governo de oposição, a Venezuela pode se reintegrar a um mecanismo tradicional, vinculado ao Ocidente”, continua o professor.

A oposição Venezuelana é protagonizada por Juan Guaidó, reconhecido por mais de 50 países como o presidente legítimo da Venezuela. Nos últimos tempos, já é possível notar uma mudança na estratégia desta oposição para retirar Maduro. “Agora se acena com a possibilidade de retirar gradualmente o poder do chavismo através da via eleitoral”, explica o professor Villa.

Se antes o regime de Maduro era visto como inflexível e autoritário, hoje, com a intensificação da crise econômica e social, o próprio governo já indica maiores aberturas. Novos canais de diálogo com a oposição, integração da oposição a organismos eleitorais e a libertação de presos políticos indicam esse caminho de maior abertura interna. Porém, agentes internacionais, como EUA, Canadá e União Europeia já apontaram que novas prisões a opositores – como ocorreu em julho, com Freddy Guevara, nome aliado a Guaidó – podem comprometer as negociações de flexibilização.

 

Moeda de troca

Perguntado sobre a real possibilidade de os Estados Unidos baixarem as sanções à Venezuela como forma de flexibilização, o professor Villa se mostra pouco otimista: “A administração de Joe Biden (presidente dos Estados Unidos) não vai flexibilizar ou não vai acabar tão facilmente, porque as sanções são a moeda de troca mais forte que têm a administração americana e a Europa para negociar medidas políticas de mudanças mais profundas na Venezuela”.

E ter uma moeda de troca nesse contexto é de certa forma um privilégio. Países vizinhos à Venezuela, como o Brasil, por exemplo, não têm esse poderio. O país ocupa, a partir de 2021, a presidência do Mercosul, bloco de integração econômica de países sul-americanos. Cabe lembrar que a Venezuela encontra-se dele suspensa desde 2017 por “ruptura com a ordem democrática”.

Como o Brasil não possui a tal moeda de troca que são as sanções e seu próprio governo não indica aceitar o regime de Maduro, uma reintegração ainda parece distante. “Como as diretrizes da atual chancelaria não são propriamente de caráter pragmático, mas são mais diretrizes de governo atual, acho difícil que o Brasil tente uma aproximação de ordem política e diplomática, porque isso significaria um reconhecimento do governo Maduro, que não existe. O governo brasileiro reconhece Guaidó como presidente”, lembra o professor Villa.

 


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