Mercado chinês e estocagem para fim de ano aumentam preço da carne

Thiago Carvalho explica que o valor elevado do boi gordo deve permanecer, mas trará renda e emprego

Neste ano,  o preço da arroba do boi gordo partiu de R$ 160 para R$ 230 no atacado. O consumidor passou a sentir os reflexos desse maior custo em seu bolso há algumas semanas. A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, avisa que o valor da carne bovina não vai voltar ao patamar anterior. Sob seu comando, a pasta prioriza a abertura de novos mercados.

O pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Thiago Bernardino de Carvalho, explica que o mercado da China fez uma grande pressão sobre a demanda do boi gordo. “Sempre falávamos de um dragão chinês. O consumidor de lá tem em média 5 kg de carne bovina por ano. O brasileiro já consome 35 kg”, conta ao Jornal da USP no Ar. Consequentemente, o preço da tonelada saiu de US$ 4.600 para US$ 5.200.

Um outro aspecto é que o gado brasileiro está na entressafra, de acordo com Carvalho. O período de junho até agosto é marcado por estiagem em boa parte do território nacional. Assim, a disponibilidade de pasto diminui. O pecuarista tem de compensar a alimentação do seu gado com ração — mais cara. Por isso, há menos oferta de boi gordo no mercado, também.

Antecipando o fim do ano, atacadistas preparam seus estoques de carne bovina. O consumo do gênero alimentício sobe, na medida em que as festas de dezembro se aproximam. Logo, há mais um choque de demanda. Entre 70% e 80% do produto brasileiro fica no mercado doméstico, segundo o pesquisador. Somados os três fenômenos, o preço da carne explode. Em agosto, os valores de bezerro e garrote já subiam.

Gado de corte do Laboratório de Avaliação Animal e Qualidade de Carne do campus de Pirassununga. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Esse novo valor da carne vai gerar renda, emprego e mais divisa para o Brasil”, argumenta Carvalho. Apesar de ter o maior rebanho do mundo (200 milhões de cabeças), o País ainda é o segundo produtor em quantidade da commodity no mundo. Os Estados Unidos, com 90 milhões de cabeças, são quem mais vende no gênero. O economista explica que essas posições se explicam em razão da eficiência de produção.

No médio e no longo prazo, o pesquisador esclarece que será o aumento de produtividade do pecuarista brasileiro que propiciará um melhor preço da carne bovina. Ele compara a vantagem do Brasil na pecuária com as reservas de petróleo da Arábia Saudita. O campo e as condições de pasto daqui permitem um valor de produção muito baixo. “Temos condições de aumentar a produtividade. Então, vamos fretar tanto para dentro como para fora, em melhores termos”, diz.

Com a guerra comercial entre China e Estados Unidos, as exportações ao mercado chinês subiram 110%. Para a Rússia, o aumento foi de 694%. Os dados são da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Nessa medida, o economista explica que o consumidor brasileiro terá de se adaptar. Como reflexo do preço do boi gordo, outras proteínas também encarecem.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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