Medo de voar aumenta com acidentes aéreos

Estudos mostram que cerca de um terço da população mundial tem medo de viajar de avião

Ouça a entrevista do repórter Fabio Rubira com o psicólogo Cristiano Nabuco, do Instituto de Psiquiatria da USP:

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O acidente com o avião que transportava a delegação da Chapecoense, no qual morreram mais de 70 pessoas, no dia 29 de novembro passado, apenas elevou, e muito, o pavor que muitas pessoas têm de voar de avião, uma autêntica fobia muitas vezes contornável somente a custo de tranquilizantes. O psicólogo Cristiano Nabuco, do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso, do Instituto Psiquiatria da USP, admite que eventos como o que ocorreu com o voo da Chapecoense aumentam a ansiedade de quem tem medo de viajar de avião. “É como se aquelas expectativas, muitas vezes ansiógenas, que as pessoas carregam desse meio de transporte fossem confirmadas”, diz ele em entrevista ao repórter Fabio Rubira.

Aerofobia é o nome que se dá ao medo que as pessoas têm de andar de avião, fenômeno cuja incidência é estimada em cerca de um terço da população mundial. O que muita gente não sabe, porém, é que existe um número expressivo de instituições dedicadas ao tratamento da fobia, algumas delas constituídas por pilotos e ex-pilotos de aeronaves, os quais se propõem a ensinar ao viajante quais seriam as bases que norteiam o processo de segurança aérea. Mas existem outras abordagens, dando ênfase a outros aspectos do problema.

O medo de viajar de avião pode causar a sensação de pânico em muitas pessoas - Foto: Alexander Wrege via Visual Hunt
Andar de avião pode causar a sensação de medo em muitas pessoas – Foto: Alexander Wrege via Visual Hunt

Segundo Cristiano Nabuco, sabe-se que o centro do medo opera no que se chama de amígdala cerebral, que nada mais é do que o centro de tomada de decisão do nosso organismo. “É ela que entra em funcionamento quando vamos atravessar uma rua movimentada, por exemplo. Ela toma as decisões ligadas à sobrevivência”, explica.

Ocorre que os cursos que visam a informar sobre a segurança dos voos vão atuar no córtex pré-frontal, a região do conhecimento, mas esta tem pouca influência sobre o aspecto emocional da amígdala. “Para que possamos lidar com o medo, temos de trabalhar com questões ligadas à emocionalidade e não sobre a lógica subjacente de se um voo é mais seguro ou não, ou se a probabilidade de um avião cair é menor do que a de um carro bater. Isso pode servir para muitos, mas não para o indivíduo com esse tipo de fobia.”

Apenas cerca de  5% das pessoas que buscam tratamento têm histórias pregressas de situações negativas de voo, ou seja, passaram por algum tipo de dificuldade. Noventa e cinco por cento delas trazem “uma organização pessoal muito ligada à ansiedade. São pessoas que constroem a vida através de uma leitura mais perigosa. Quando se percebem dentro de um avião, numa situação em que elas não têm controle nenhum, essas fobias aparecem”.

Um passageiro em um avião agarra o encosto da poltrona com medo de voar - Foto: jimynu via Visual Hunt
Um passageiro em um avião agarra o encosto da poltrona com medo de voar – Foto: Jimynu via Visual Hunt

Na verdade, de acordo com o psicólogo,  em 95% dos casos, a fobia se manifesta no avião, mas não é derivada do avião. “Outras questões pessoais anteriores (construções mentais, estilos de vida mais inseguros) fazem com que o avião seja o novo palco de manifestação dessas inseguranças.”

Como lidar com essa fobia? Há exercícios que possuem uma influência poderosa sobre a morfologia do cérebro, como técnicas de meditação, as quais, aliadas a exercícios respiratórios, podem diminuir a ansiedade de viajar de avião. Outra dica que pode ser útil é que os indivíduos com medo de voar procurem fazê-lo acompanhado de pessoas conhecidas, que cumpram o papel de tranquilizar o parceiro medroso. Além disso, pesquisas mostram que relatar o que se sente tem um efeito igualmente terapêutico. Pegar uma folha de papel e escrever a respeito de seu medo de voar, durante cinco dias seguidos, pode ter um efeito poderoso na redução desse quadro de ansiedade. “A primeira narrativa é sempre diferente da última, pois, a cada vez que o indivíduo se propõe a relatar sua dificuldade, é como se fosse entrando em contato com esses medos subjacentes, com essas angústias, e isso tem um efeito muito poderoso”, revela Cristiano Nabuco.

 

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