Livros de autoajuda não substituem ajuda profissional, alerta especialista

Segundo Geovana Figueira Gomes, é preciso compreender as diferenças entre os indivíduos para verificar que, enquanto algumas pessoas utilizam o conteúdo e veem benefícios, outras não o aprovam

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Geovana: “É preciso procurar por conteúdos adaptáveis à realidade, aos limites e padrões de vida de cada um” – Foto: Gerd Altmann via Pixabay

 

Simpática a alguns, antipática a outros, a autoajuda, como a encontrada nesta categoria de livros, tem eficácia questionada porque as pessoas são diferentes. É assim que a psicóloga Geovana Figueira Gomes entende a questão e responde à pergunta: livro de autoajuda realmente funciona? 

Pesquisadora da área de Psicologia em Saúde e Desenvolvimento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Geovana diz que é preciso compreender as diferenças entre os indivíduos para verificar que, enquanto algumas pessoas utilizam o conteúdo e veem benefícios, outras não o aprovam. Assim, completa, “não existe certo ou errado”, mas formas diferentes de desenvolvimento, “formas de existir diferentes e não existe uma melhor que a outra”.

Para a pesquisadora, o que torna esses materiais tão atrativos é a oferta de soluções para os problemas vividos no mundo contemporâneo. “Vivemos um momento muito acelerado, que exige que sejamos rápidos e espertos, que acompanhemos esse fluxo e que existem várias outras pressões.” No entanto, avalia Geovana, os conteúdos de autoajuda oferecidos nesses materiais entregam a mesma “receita” para todas as pessoas.

Para a psicóloga, essas “receitas” devem ser mais bem observadas pelo público consumidor, já que “é preciso procurar por conteúdos adaptáveis à realidade, aos limites e padrões de vida de cada um” para que seja possível aplicar as ferramentas fornecidas por esses materiais.

Indivíduos diferentes

Sem consenso, no entanto, não quer dizer público menor. Autoajuda foi a categoria mais vendida entre os livros no período da quarentena no Brasil. Pesquisa feita pela Nielsen, sob encomenda do jornal O Estado de S. Paulo, mostrou que, dos 15 títulos mais comprados entre 23 de março e 12 de julho de 2020, dez pertencem a essa categoria, principalmente na área financeira. 

Para Geovana os conteúdos de autoajuda oferecidos nesses materiais entregam a mesma “receita” para todas as pessoas – Foto: Free-Photos via Pixabay

 

E quem tem experiências positivas, consumindo conteúdos de autoajuda, como contou a psicóloga Geovana, reforça esses números. Esse é o caso da estudante de Medicina Veterinária Gabriela Guariz Rosa, de 21 anos. A jovem afirma que esse tipo de literatura é “algo que realmente sempre” a ajudou e também diz que recomenda a amigos e conhecidos vídeos da mesma temática, além de leitura de obras que tiveram relevância em sua vida. “Às vezes, eu acabo de ler um livro que, para mim, foi algo esclarecedor e que eu realmente consegui enxergar aquilo e falar: ‘Nossa, é isso que eu estou sentindo e é isso que eu tenho que fazer para melhorar o que estou sentindo’”, acrescenta Gabriela.

Já Daizi Lins, estudante de Ciências Biológicas, de 23 anos, é uma das pessoas que não confiam nas soluções apresentadas nesses livros. Sobre sua própria experiência, Daizi conta que passou um bom tempo às voltas com a autoajuda pelas redes sociais, mas não percebeu nenhum efeito positivo em sua vida. “Eu era uma pessoa que consumia muito esses conteúdos no Instagram; frases, vídeos e stories, que muitas vezes nem eram de pessoas da área, e eu achava que estava tudo bem. E uma semana depois, tudo desmoronava e eu não sabia o porquê”, desabafa.

Ajuda profissional x autoajuda

Nesse contexto, a psicóloga Geovana diz que a autoajuda não substitui ajuda terapêutica e que, muitas vezes, ao consumir esses materiais, o indivíduo percebe a necessidade de terapia com um profissional licenciado. Geovana alerta que nem sempre os criadores de conteúdos de autoajuda são especializados e, mesmo com a intenção de auxiliar, podem atrapalhar.

A psicóloga informa que “a formação em Psicologia abrange o conhecimento de várias teorias e o desenvolvimento de questões éticas que são superimportantes. Então, nós temos uma formação que nos prepara para esse olhar mais amplo”. Sem esse preparo, continua Geovana, “as propostas podem se tornar simplórias”. 

De qualquer forma, a ciência ainda não se debruçou sobre os efeitos dos conteúdos de autoajuda no cérebro. São poucas as investigações sobre o assunto, conta Geovana, que acredita que muitos dos materiais disponíveis na internet, por exemplo, sejam produzidos a partir de algumas informações obtidas em pesquisas da área de neurociência.

 


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