Legado de Cásper Líbero vai além da criação de faculdade

Advogado, político, empresário e jornalista é mais lembrado por fundação deixada em testamento do que por sua vida

No Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) organizava um banquete em homenagem ao esforço dos aliados no combate ao nazifascismo, na Segunda Guerra Mundial. Entre os convidados, além dos embaixadores dos Estados Unidos e do Canadá, estava Cásper Líbero, dono dos jornais A Gazeta e A Gazeta Esportiva. O avião, no qual se encontrava o advogado, político, empresário e jornalista, colidiu com uma das torres da Escola de Cadetes da Marinha, nas proximidades da Baía da Guanabara. Líbero não ficou no grupo de três sobreviventes. Seu testamento entrou para a história, ao deixar não só sua fortuna aos seus funcionários, mas uma missão: a criação de uma fundação, hoje, sediada na Avenida Paulista, 900.

A Fundação Cásper Líbero (FCL) tem um propósito tríplice, segundo a vontade de seu homenageado. O “objetivo cultural de criar e manter uma escola de jornalistas” é um deles. Assim, surge o trocadilho que dá título ao livro Cásper Líbero: jornalista que fez escola, de Dácio Nitrini, que já foi repórter, editor, chefe de reportagem e diretor de redação nos principais veículos de comunicação do País.

Cásper Líbero, o empresário da imprensa que revolucionou o jornalismo brasileiro, ganha biografia – Foto: Reprodução

Antes da faculdade, Líbero revolucionou o jornalismo brasileiro, de acordo com o superintendente de Comunicação Social da USP, Luiz Roberto Serrano, deixando uma escola na prática da reportagem. Nitrini, em seu livro, narra a trajetória de Cásper Líbero da aquisição de A Gazeta, em 1918, um jornal falido, até seu importante legado para São Paulo e ao País. A obra é baseada em documentos e relatos do personagem e dos seus contemporâneos

O escritor salienta ao Jornal da USP no Ar que “é impossível dissociar a história de um jornal da situação política e econômica de um país”. O empresário da imprensa foi protagonista na eleição do paulista Júlio Prestes para a Presidência, fugitivo da Revolução de 30 encabeçada por Getúlio Vargas e apoiador do Estado Novo e da censura do período autoritário getulista.

Nitrini também salienta o empreendedorismo do dono de A Gazeta. “Foi um dos primeiros a realizar grandes eventos com o intuito de uma melhor inserção do jornal”, conta. No centenário da Independência, em 1922, ocorreu o Campeonato Sul-Americano. Como não havia rádio, as transmissões eram precárias. A descrição das partidas chegava via telégrafo e os placares afixados, em papel cartão, na frente das redações. Líbero, na ocasião, comprou um telefone alto-falante fabricado nos Estados Unidos. Uma ponta da linha ficou no Estádio das Laranjeiras, a outra na sede do jornal. O aparelho foi conectado às cornetas de transmissão, e o Vale do Anhangabaú acompanhou ao vivo o torneio. As repercussões vieram com a venda de mais de 100 mil exemplares de A Gazeta. “Os jornais tiravam entre 28 mil e 30 mil no período”, indica o autor.

O jornalismo esportivo também bebeu na trajetória de Cásper Líbero. Serrano recorda que empilhava edições de A Gazeta Esportiva em seu quarto. Para além do futebol, o jornal especializado acompanhava de perto a luta livre, com personagens como Fantomas, e o boxe, do campeão Éder Jofre. Nessa área, o legado mais importante de Líbero é talvez a popularização da corrida de São Silvestre. Hoje, internacional, a meia-maratona foi inspirada nas “corridas pedestrianas” que o jornalista conheceu em Paris. Em 1925, ele idealizou a primeira competição, na qual os corredores portavam tochas; um espetáculo e tanto.

Dácio Nitrini lança Cásper Líbero, jornalista que fez escola

Utilizando o sucesso comercial da cobertura do Campeonato Sul-Americano, Cásper Líbero adquiriu a totalidade das ações de A Gazeta. De início, seu empreendimento foi financiado pelos cafeicultores Júlio Prestes,  ex-governador de São Paulo, e Oscar Rodrigues Alves, filho do ex-presidente, que detinham parte do jornal. Nitrini defende que esse elo é a demonstração da influência do Partido Republicano Paulista (PRP) não só sobre Líbero, como também sobre a atuação de sua redação.

O livro da editora Terceiro Nome aborda um personagem complexo em um momento-chave da história do Brasil. A Gazeta, mesmo sendo um jornal vespertino, competia em tiragem com matutinos importantes como O Estado de S. Paulo. Nitrini alega que conhecer Cásper Líbero é um bom caminho para entender a história da imprensa escrita brasileira e sua relação com o poder.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.

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