Interrupção de testes com vacina de Oxford destaca compromisso da ciência

Segundo Paulo Lotufo, a vacina só deve chegar ao mercado depois de passar com sucesso por testes da fase três, de forma rigorosa e segura para toda a população

Os testes da vacina contra o novo coronavírus, realizados pela Universidade de Oxford, foram suspensos nesta semana em função de um protocolo de segurança. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o professor Paulo Lotufo, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina (FM) e diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP, sede do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil), explica que esse procedimento é muito comum em inúmeros tipos de testes clínicos, e que embora não seja desejada, a situação justifica a necessidade de a vacina chegar ao mercado apenas depois de passar com sucesso por testes da fase três, de forma rigorosa e segura.

O professor também conta que a decisão de suspender ensaios clínicos vem de um comitê externo que não responde aos patrocinadores do projeto e, a partir das informações recebidas dos desenvolvedores da pesquisa, se chega a uma determinação sobre o prosseguimento ou não das fases. “Nesse caso, ficamos sabendo que a ocorrência que levou à decisão foi a de uma paciente que teve uma inflamação na medula espinhal. Desde o anúncio do caso, com certeza uma série de testes, sequenciamentos genômicos e a revisão dos lotes das vacinas foram realizados para entender o que teria causado esse efeito”, aponta.

Apesar da pressão social a favor da rápida disponibilização da vacina, o especialista explica que, se isso acontecesse sem ter resultados muito bem-apresentados ao público geral, as consequências seriam extremamente perigosas: “Primeiro, poderíamos colocar no mercado uma vacina não segura, ou colocar uma vacina que não fizesse mal, mas que também não fizesse bem, fazendo com que as pessoas não fossem imunizadas de verdade. Além disso, pode ocorrer ainda que o fiasco de uma vacina leve ao fiasco de todas as outras, tanto para a covid-19 quanto para outras doenças, o que seria catastrófico”. Ainda há esperança de que a paciente que levou à suspensão dos testes se recupere e que seja comprovada que a causa da enfermidade não tenha sido a vacina em si, mas, se essa relação for confirmada, os órgãos de segurança no Reino Unido serão notificados e seguirão com os protocolos.

Segundo Lotufo, a situação também destaca a seriedade e o compromisso dos desenvolvedores para com os protocolos de segurança e a regulamentação dos ensaios clínicos, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. “É importante que se entenda que há várias regras na ciência, inclusive em relação à publicação científica, que poderiam parecer uma implicância burocrática, mas que agora se provam como a atitude correta de se proceder em relação às pesquisas”, indica o diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP.

Saiba mais ouvindo a entrevista na íntegra.


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